Por Maria Lúcia Dahl - Depois do segundo bolo, o eletricista que há uma semana me largou tomando banho frio, segundo ele, por que o chuveiro do meu banheiro estava sem resistência, o que era muito perigoso, pensei na minha própria resistência, bem pior que a do chuveiro, cansada de todos os problemas caseiros que estou sempre tentando resolver, tais como a Net, a Light, a água, o lixo da rua, as contas, os mosquitos, os terríveis jornais da TV, decido, finalmente, jogar tudo pro alto e ir ao teatro ver “Simbora, o musical, a história de Wilson Simonal”, no seu último dia de carreira, no Carlos Gomes .
Colunista Maria Lúcia Dahl adorou a encenação teatral sobre o cantor Wilson Simonal
Depois do segundo bolo, o eletricista que há uma semana me largou tomando banho frio, segundo ele, por que o chuveiro do meu banheiro estava sem resistência, o que era muito perigoso, pensei na minha própria resistência, bem pior que a do chuveiro, cansada de todos os problemas caseiros que estou sempre tentando resolver, tais como a Net, a Light, a água, o lixo da rua, as contas, os mosquitos, os terríveis jornais da TV, decido, finalmente, jogar tudo pro alto e ir ao teatro ver “Simbora, o musical, a história de Wilson Simonal”, no seu último dia de carreira, no Carlos Gomes .
Milhares de senhoras idosas saíam de kombis que vinham de longe e enfrentavam filas imensas pra assistirem a vida de seu ídolo, contada através de uma montagem absolutamente perfeita, composta pela iluminação de Thomas Ribas, cenário de Hélio Eichbauer, figurinos incríveis de Marília Carneiro, e, óbviamente, o texto de Nelson Motta e Patricia Andrade alem da interpretação de Ícaro Silva como Simonal, talvez melhor ainda que a do próprio, como ator, cantor e dono de uma delicadeza e carisma excepcionais.
Destaco ainda Victor Maya, o ator que interpreta o roqueiro mineiro fazendo a plateia inteira de idosos dançar e cantar com ele, Thelmo Fernandes, que interpreta Carlos Imperial e todos os outros, inclusive as maravilhosa atrizes-cantoras-bailarinas.
Como me lembro com saudades daquela década em que o Simonal apareceu com seu novo jeito de interpretar suas músicas que nos aliviava um pouco do insuportável peso da ditadura militar á que estávamos todos submetidos e que acabou também com a carreira e a vida do cantor.
Depois de um primeiro ato tão contagiantemente alegre e perfeito, fiquei pensando como se construiria um segundo, mergulhando nos porões da ditadura, no declínio da carreira e morte do Simonal depois da plateia ter vindo abaixo de prazer.
Surpreendentemente os autores tiveram a ideia genial de levar o cantor para o céu onde depois de sua triste decadência e morte causadas pelos milicos. Lá ele encontra o Carlos Imperial que o leva a refazer seus melhores espetáculos e momentos para um público que renasceu livre de qualquer pressão militar cantando e dançando com ele:
-Nem vem de garfo que a comida hoje é sopa.
-Nem vem que não tem...
Maria Lúcia Dahl, atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins
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