Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Nem Jean-Baptiste Say nem Keynes/Kalecki

Terça, 12 de Julho de 2011 às 00:52, por: CdB

Por Rosa-dos-Ventos 12/07/2011 às 06:40

Nesse artigo tento responder à pergunta "O excesso de produção é causado pelo consumismo ou o consumismo é causado pelo excesso de produção?", feita pelo Janos Biro em outro debate

Nesse artigo tento responder à pergunta "O excesso de produção é causado pelo consumismo ou o consumismo é causado pelo excesso de produção?", feita pelo Janos Biro em outro debate que pode ser acessado no link abaixo:

 http://www.midiaindependente.org/eo/blue/2011/06/493454.shtml

O excesso de produção não é causado pelo consumismo nem o consumismo é causado pelo excesso de produção. Não há relação de causalidade entre o consumismo e a super-produção. A super-produção e o consumismo, juntamente com o sobretrabalho, o super-investimento, a super-poupança, a super-acumulação, a obsolescência planejada, o desperdício, o desemprego, a exclusão social, etc. são efeito conjunto da produção para a obtenção de lucro, em vez da produção para a satisfação das necessidades sociais. Se, em vez de se produzir para o mercado, isto é, se, em vez de se produzir valores de troca, produzíssemos valores de uso, acabaríamos com o sobretrabalho e com o desemprego/exclusão social, acabaríamos com a super-produção, com o super e com o sub-consumo, com a super-poupança, com o super-investimento, com a obsolescência programada, com o desperdício, etc.

No início do Capitalismo e da Revolução Industrial, quando as forças produtivas ainda eram pouco desenvolvidas e havia possibilidade de expansão quantitativa-territorial e qualitativa dos mercados, o economista francês Jean-Baptiste Say enunciou a lei dos mercados, segundo a qual toda oferta cria sua própria demanda. Quando as forças produtivas avançaram e os mercados encolheram, isto é, quando ocorreu a primeira crise de super-produção capitalista, a precipitada lei de Say revelou-se falsa. A produção capitalista/oferta não cria, necessariamente, sua própria demanda. Se essa produção se destinasse prioritariamente à satisfação das necessidades sociais, o avanço das forças produtivas serviria para reduzir a jornada de trabalho do operário e aumentar sua qualidade de vida, não para desempregá-lo e aumentar seu grau de exploração, desembocando na crise de super-produção.

Por outro lado, Keynes e Kalecki, que afirmam que o volume da produção depende da demanda efetiva e da eficiência marginal do capital, isto é, da taxa de lucro, também não têm razão, pois a demanda efetiva não consegue evitar a saturação dos mercados. E se eles estivessem certos em suas afirmações, veríamos que o capitalismo jamais resolveria o problema da demanda reprimida e do desmprego/exclusão social, pois os investimentos da burguesia só levam em conta a taxa de retorno dos mesmos e quem tem poder aquisitivo, e o nível de emprego, segundo Keynes, depende da demanda efetiva. Assim, criar-se-ia um círculo vicioso do qual seria impossível escapar, porque o volume da demanda efetiva também depende do nível de emprego, pois onde a demanda de bens de consumo é baixa, a demanda de bens de produção tende a baixar, pois não tem lógica investir neles se a produção de bens de consumo derivada deles não terá demanda ou que, ainda que tenha demanda efetiva, tenha baixa taxa de retorno.

Foi Karl Marx quem primeiramente constatou que a produção capitalista depende da constante expansão do mercado mundial. 'O mais a produção capitalista se desenvolve, o mais ela tem que produzir numa escala que não tem nada ver com a demanda imediata mas que depende duma expansão constante do mercado mundial. Ricardo utiliza a afirmação de Say segundo a qual os capitalistas não produzem para o lucro, para a mais-valia, mas que produzem valores de uso diretamente para o consumo - para seu próprio consumo. Ele não toma em conta o fato que as mercadorias devem ser convertidas em dinheiro. O consumo dos operários não basta, porque o lucro provem precisamente do fato que o consumo dos operários é inferior ao valor do seu produto e que ele (o lucro) é tão grande quanto o consumo é relativamente pequeno. O consumo dos próprios capitalistas também é insuficiente.'

O mercado mundial já não tem mais, na prática, a possibilidade de expansão quantitativa/territorial. Por outro lado, na era nuclear, a 'solução' para a super-produção e para a baixa taxa de lucro decorrente do elevado grau de mecanização da produção, através da guerra de destruição, só agravaria o problema em vez de resolvê-lo. Em sendo assim, se a burguesia não reduz a jornada de trabalho e se a classe operária não tem vontade política e/ou força suficiente para impor essa redução, só resta à elite apelar para o consumismo, para a obsolescência planejada, para a redução dos salários, para o desemprego/exclusão social e para o desperdício, a fim de manter o povo sempre trabalhando arduamente, sub-consumindo e, dessa forma, manter a sociedade hierarquizada e seus privilégios intactos.

Ainda, segundo Marx

"Esta justa proporción entre la oferta y la demanda, que vuelve a ser objeto de tantos buenos deseos, ha dejado de existir hace mucho. Es una antigualla. Sólo fue posible en las épocas en que los medios de producción eran limitados y el cambio se efectuaba en un marco extremadamente restringido. Con el nacimiento de la gran industria, esta justa proporción debía cesar, y la producción tenía que pasar fatalmente, en una sucesión perpetua, por las vicisitudes de prosperidad, de depresión, de crisis, de estagnación, de nueva prosperidad, y así sucesivamente.

Los que, como Sismondi, quieren retornar a la justa proporcionalidad de la producción, conservando al mismo tiempo las bases actuales de la sociedad, son reaccionarios, puesto que, para ser consecuentes, deben también aspirar a restablecer todas las demás condiciones de la indústria de tiempos pasados.

¿Qué es lo que mantenía la producción en proporciones justas, o casi justas? La demanda, que regia la oferta y la precedía. La producción seguía pasó a pasó al consumo. La gran indústria, forzada por los instrumentos mismos de que dispone a producir en una escala cada vez más amplia, no puede esperar a la demanda. La producción precede al consumo, la oferta se impone sobre la demanda.

En la sociedad actual, en la indústria basada sobre los cambios individuales, la anarquía de la producción, fuente de tanta miséria, es, al propio tiempo, la fuente de todo progreso;

Por eso, una de dos:

O queréis las justas proporciones de siglos pasados con los medios de producción de nuestra época, lo cual significa ser a la vez reaccionário y utopista;

o queréis el progreso sin la anarquía: en este caso, para conservar las fuerzas productivas, es preciso que renunciéis a los cambios individuales.

Los cambios individuales son compatibles únicamente con la pequeña indústria de siglos pasados y su corolario de 'justa proporción', o bien con la gran indústria y todo su cortejo de miséria y de anarquía."

Assim, se queremos acabar com o super-investimento, com a super-poupança, com o consumismo, com a super-produção, com o sobretrabalho, com o desperdício, com a obsolescência programada, etc., não temos outra alternativa que não seja a socialização dos meios de produção e a abolição do mercado e das trocas.

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