Rio de Janeiro, 12 de Setembro de 2026

Nelson Freire encanta Paris

Terça, 23 de Março de 2004 às 09:34, por: CdB

O pianista brasileiro Nelson Freire, considerado por alguns críticos um dos segredos mais bem guardados da música, depois de 25 anos sem gravar um disco, encantou o público do teatro Chatelet, em Paris, neste fim de semana, com a clareza de seu piano e a elegância de seu jogo de mãos.

Freire interpretou peças de Beethoven, Schumann e os Estudos de Chopin, para uma platéia em êxtase, que ao fim do concerto, se manteve em silêncio durante vários segundos, antes de explodir em aplausos e ficar de pé até fazê-lo voltar ao piano.


Aos 59 anos, Nelson Freire é um mito entre seus colegas e conhecedores da música, que só o comparam com pianistas secretos e magistrais, como o lendário canadense Glenn Gould. Mas misteriosamente, Freire é um desconhecido para o grande público.


"É um dos pianistas mais empolgantes de todos os tempos", desmanchou-se em elogios a revista Time, depois do primeiro concerto do brasileiro em Nova York. A imprensa européia elogia a combinação equilibrada de espontaneidade, mistério, conhecimento, análise e honestidade de sua música.


Tímido, paciente e pensativo, Freire sofreu com a fama e encontrou no piano seu único consumo, como na sua infância, marcada por crises de asma, erupções, eczemas, que talvez traduzissem a extrema sensibilidade do artista observada na forma como toca o piano.


"Nasci quase morto. Alérgico à vida, não suportava nenhum alimento. Vivia sob constante proteção e todos os jogos me foram proibidos", contou o pianista ao jornal francês Le Monde.


"Meu pai logo experimentou a necessidade de escrever uma longa carta para lembrar este calvário da minha infância, em que só o piano, que minha irmã tocava, era o único consolo", lembrou Freire, que nasceu na pequena cidade de Boa Esperança (Minas Gerais), em 1944.


Ele tinha três anos quando começou a tocar, de memória, obras inteiras que ouvia sua irmã mais velha ensaiar no piano.


Percebendo o talento natural do filho, os pais se mudaram para o Rio de Janeiro, onde Freire começou a estudar piano. Aos quatro anos, deu seu primeiro concerto, interpretando a Sonata em Lá maior, de Mozart.


"Tinha cinco anos e umas cinqüenta obras no meu repertório, entre elas a célebre Rapsodia número 2, de Liszt", contou, lembrando que no Rio de Janeiro sua saúde melhorou, pela proximidade com o mar, mas que seu caráter continava sendo "tempestuoso".


O sucesso chegou cedo. Aos doze anos, venceu o Concurso Internacional de Piano, no Rio de Janeiro, ao tocar o "Concerto do Imperador", de Beethoven.


Em 1959, conseguiu uma bolsa do governo brasileiro e foi estudar em Viena, seguindo os passos da maioria dos pianistas sul-americanos. E embora a capital austríaca lhe parecesse glacial, ali conheceu a pianista argentina Martha Argerich, sua acompanhante em dezenas de viagens musicais e com quem gravou o "Carnaval dos Animais", de Saint-Säens.


Depois de ganhar, aos 19 anos, a Medalha Dinu Lipatti, em Londres, e o primeiro prêmio do Concurso Internacional Vienna da Motta, em Lisboa, Freire gravou seus primeiros discos.


"Eu descobri que podia ganhar dinheiro tocando piano", brincou.


Vivendo há vários anos numa pequena casa numa rua tranqüila de Paris, Freire tem no currículo interpretações como solista com a Filarmônica de Berlim, a Sinfônica de Londres, a Sinfônica de Viena, entre outras, colaborando com diretores como Pierre Boulez, Eugen Jochum, Lorin Maazel, Kurt Masur e Andre Previn.


Após 25 anos de exílio voluntário dos estúdios, ele decidiu gravar dois discos, com obras de Chopin e Schumann, pela Decca, que foram recebidos com muitos elogios pela crítica.


No ano passado, o cineasta João Moreira Salles lançou o documentário "Nelson Freire", sobre a relação do artista, considerado um dos maiores pianistas da atualidade, com sua música.

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