Rio de Janeiro, 04 de Maio de 2026

Nélida Piñon aposta em suspense poético na literatura

Quinta, 20 de Outubro de 2005 às 05:42, por: CdB

A escritora Nélida Piñon defendeu na quarta-feira o poderio da linguagem, e apostou em uma literatura impregnada de certo obscurantismo poético, mas não incompreensível.

Em entrevista coletiva hoje em Oviedo, na Espanha, onde na próxima sexta-feira a escritora receberá o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras, a autora de "Vozes do Deserto" - seu último livro - disse que sua obra é marcada, antes de tudo, "pela forma em que as histórias podem ser contadas".

- A maneira de contar uma história a define, da mesma forma que a linguagem define o ideal da literatura - explicou Nélida Piñón, que nasceu no Rio de Janeiro, em 1937.

Nélida Piñon, que se definiu como uma amante da literatura, disse que sempre está produzindo e que, atualmente, trabalha em três livros.

A autora adiantou que está terminando um livro de ensaios, cujo título será Homero e eu. De acordo com Nélida Piñon, a conclusão da obra foi atrasada por causa do Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras, que agitou sua vida.

- Também tenho praticamente terminado um trabalho que me atrai muito, e que se baseia em uma série de aforismos e reflexões cujo objetivo é detectar a origem das idéias - acrescentou.

O terceiro livro na qual a autora trabalha é um novo romance, do qual ela preferiu não adiantar o conteúdo.

- Estou convivendo, portanto, com três linguagens diferentes, o que é muito estimulante. Tento avançar nelas em meio à intensa vida que levo - ressaltou.

Nélida Piñón disse ainda que cada livro tem uma forma de nascer, e que ela sempre se preocupou especialmente com o mundo da linguagem.

-Uma das diferenças da literatura é a metamorfose que as palavras ganham quando são contadas - declarou a autora, que considerou que sua linguagem tem uma visão poética que se baseia na grande fabulação humana.

A escritora lembrou ainda que sua obra foi tachada muitas vezes de vanguardista, mas ressaltou que tem muitas dúvidas sobre a concepção desse conceito.

- O que sempre soube é que a linguagem é tão poderosa que só através dela poderia dizer tudo o que pensava; é como se houvesse dentro da literatura uma visibilidade e uma invisibilidade, algo que pode e não pode ser tocado, a grande ambigüidade do texto - refletiu.

Segundo a escritora, a grande linguagem poética trabalha com oposições e a literatura sempre precisa de um certo obscurantismo poético, sem chegar a torná-la incompreensível.

A autora de obras como Tebas do meu Coração, de 1974,  e A República dos Sonhos, de 1984, destacou seu interesse pela ilusão na literatura, que definiu como o "acordo tácito e misterioso que se estabelece entre um livro e o leitor".

- O livro tem que convencer o leitor de que é verossímil no sentido de que é aceitável, já que a ficção é um exercício de extremada liberdade, embora toda linguagem que emana de um texto se dirija ao ser humano, apesar de metabolizar a realidade - ressaltou.

Para Nélida Piñon, este é o objetivo máximo de qualquer obra de arte: Que se fundam todos os interesses humanos.

Quanto à lei promulgada no Brasil que torna obrigatório o ensino do espanhol em todas as escolas e colégios públicos e privados do ensino médio, Nélida Piñon disse que parece uma iniciativa muito interessante, porque facilitará que os jovens entrem em um universo tão rico e poderoso como o do espanhol.

Além disso, a escritora afirmou que o fato de o espanhol não ser falado no Brasil isolou muito o país na região ibero-americana, da mesma forma que a literatura nacional.

No entanto, a escritora também apostou no ensino do português no resto da América Latina.

Nélida Piñon é a primeira autora com obras em língua portuguesa a ganhar o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras. A escritora anunciou ainda que discursará em português na cerimônia de entrega dos prêmios.

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