Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Negociações no varejo devem garantir governabilidade para Lula

Segunda, 13 de Dezembro de 2004 às 18:33, por: CdB

O rompimento formal de PMDB e PPS com a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fim de semana deve afetar pouco a governabilidade, mas pode forçar um aumento nas negociações individuais, reforçando a chamada política de varejo.

No fim de semana, PMDB e PPS decidiram deixar a base de apoio ao governo do presidente Lula para adotar uma posição de independência. Pelo menos neste primeiro momento os dois partidos não falaram em oposição, repetindo o discurso de compromisso em votar as matérias de "interesse nacional".

Se existe consenso nas avaliações de parlamentares, ministros e analistas sobre o impacto final das baixas na base aliada, as opiniões se dividem quanto ao custo dessa mudança de cenário.

"Antes não tínhamos a totalidade desses partidos, agora teremos de conversar com interlocutores. Teremos de ser mais criativos", disse a jornalistas o ministro Jaques Wagner (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), após reunião de coordenação política com o presidente Lula.

"O que fica claro é o seguinte: a independência nos dá espaço para o diálogo", acrescentou Wagner, procurando mostrar otimismo.

Já o líder do oposicionista PFL na Câmara, deputado José Carlos Aleluia (BA), acha que a situação fica mais complicada para o Planalto.

"O governo vai ter que construir uma maioria individual, conversando peça por peça. Na Câmara, era um passeio, acho que agora as coisas vão ficar mais difíceis. O governo terá que negociar mais", afirmou Aleluia.

Mesmo o senador Renan Calheiros (AL), um dos líderes do PMDB governista, vê com maus olhos a situação que começa se criar no Congresso.

"Isso não aperfeiçoa o processo político nacional. É ruim fazer maioria congressual por cima dos partidos, contar galinhas. Isso estimula o fisiologismo", disse Renan.

Alguns parlamentares governistas, em conversas reservadas, fazem uma avaliação ainda mais dura. "Em toda votação no Congresso, o PMDB vai colocar a faca no pescoço (do governo), que é o que eles faziam no governo Fernando Henrique Cardoso. Tudo vai virar moeda de troca", disse um deputado, que pediu para não ser identificado.

O discurso oficial, no entanto, procura minimizar a nova situação. Os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) acompanham Wagner e negam impacto na governabilidade.

"Pelo que eu ouvi da grande maioria dos parlamentares e dos senadores do PMDB e do PPS, eles vão continuar apoiando o governo", disse Dirceu a jornalistas, no Rio de Janeiro.

De fato, se valerem os últimos movimentos no Congresso, Dirceu pode ter razão. Na semana passada, boa parte das bancadas do PMDB no Congresso divulgaram um texto defendendo a permanência do partido no governo. Dos 23 senadores, 19 assinaram e dos 76 deputados, 46 deixaram aderiram.

Na principal votação deste mês até o momento, os votos do PMDB não ficaram muito distantes dos números mostrados nesses documentos.

Apenas os senadores peemedebistas Mão Santa (PI), Papaléo Paes (AP) e Pedro Simon (RS) não votaram a favor do governo na medida provisória que concedeu status de ministro ao presidente do Banco Central; os demais 20 votaram com o governo. Na Câmara, dos 76 deputados, 37 votaram a favor e 15 foram contra. Outros 24 se abstiveram ou não compareceram à votação.

No PPS, o líder da legenda na Câmara, Julio Delgado (MG), também contrário à decisão de abandonar o presidente Lula, disse que 18 dos 23 deputados, além dos dois senadores da sigla, continuarão a votar com o governo.

"Essa decisão acabou não trazendo efeito prático... Vamos reunir a bancada, mas o sentimento é de que continuaremos votando como vínhamos fazendo", disse Delgado.

Para o cientista político André César, da Goes e Consultores Associados, o maior prejuízo de toda essa movimentação acabará ficando para o próprio PMDB.

"Na prática não muda quase nada no Congresso", disse César. "Quem sai perdendo é o próprio PMDB, se expondo ao público em geral como um partido

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