O cessar-fogo permanente a partir desta sexta-feira, anunciado pelo grupo terrorista e separatista ETA (Euskadi Ta Askatasuna, ou Pátria Basca e Liberdade), após quase 40 anos de violência na Espanha, abre caminho para um processo longo e difícil no País Basco, em um contexto inicial que mistura esperança e prudência, dos partidos políticos aos separatistas radicais.
- Será um processo longo e difícil. Difícil e longo - afirmou horas depois do anúncio do ETA o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que desde a sua chegada à La Moncloa, em abril de 2004, estabeleceu como objetivo iniciar um processo de paz no País Basco (norte).
Zapatero, que está em Bruxelas para a Cúpula da União Européia (UE), expressou sua "máxima confiança" no Partido Popular (PP, direita), que se ofereceu para participar do processo de paz.
- Creio que para este processo estamos todos convocados e todos obrigados. Meu objetivo é obter essa unidade de todos os partidos para que este caminho seja concluído com o desejo majoritário de todos os espanhóis, que é o fim da violência - afirmou Zapatero.
Embora o presidente do PP, Mariano Rajoy, não tenha acreditado no anúncio do ETA afirmando que o mesmo é uma pausa, não uma renúncia, disse que seu partido apoiará o governo. Advertiu que não se deve pagar um preço político pelo diálogo com o ETA e aceitou se reunir na próxima terça-feira com Zapatero, com quem já se reuniu em setembro passado.
- ETA decidiu declarar um cessar-fogo permanente a partir de 24 de março de 2006 - afirmou o grupo nesta quarta-feira em um comunicado e em um vídeo, no qual, pela primeira vez em sua história, uma mulher, que segundo a imprensa local é Ainhoa Ozaeta, ex-membro da direção nacional do partido ilegal Batasuna, leu o comunicado.
Em uma declaração ampliada divulgada na madrugada desta quinta-feira pelo jornal "Gara", canal habitual de suas reivindicações, o ETA informou que "o objetivo desta decisão é impulsionar um processo democrático no Euskal Herria (País Basco) por meio do diálogo, a negociação e o acordo". O ETA, que em quase 40 anos de confronto contra o Estado espanhol matou cerca de 850 pessoas, defende a "superação do atual estado de negação, divisão e imposição" para "construir um processo democrático para o Euskal Herria, reconhecendo os direitos que como povo lhes correspondem", disse o grupo, que convida "todos os bascos" a participar deste processo democrático, embora não mencione a palavra "autodeterminação".
Compromisso
"É tempo de compromissos. Todos devem assumir responsabilidades, passando das palavras aos fatos", afirma o texto publicado em castelhano, euskera e francês.
Mesmo que não se refira diretamente ao Batasuna, braço político do ETA, ausente do mapa político desde 2003 quando o Supremo Tribunal espanhol o declarou ilegal, o ETA considera que o futuro processo deve assegurar "a possibilidade de desenvolvimento de todas as opções políticas". O Batasuna, que classificou o anúncio do ETA de decisão de enorme importância política, e que aspira voltar ao mapa político nas eleições municipais de 2007, lançou em novembro de 2004 uma proposta de diálogo político para solucionar o conflito basco.
Agora, resta saber quando o processo de paz será efetivamente iniciado. A imprensa espanhola especula que o ETA poderá divulgar nas próximas semanas um novo comunicado. Em meio à classe política, às associações de vítimas do terrorismo do ETA, aos empresários bascos e em círculos separatistas radicais, o anúncio foi recebido com esperança, prudência, ceticismo e, por alguns, com satisfação.
O jornal El País destaca que o ETA utilizou a expressão "cessar-fogo permanente", a mesma citada pelo Exército Republicano Irlandês (IRA), cujas negociações com o governo britânico se prolongaram por mais de dez anos, entre o cessar-fogo e o abandono da luta armada. A Comissão Européia reagiu nesta quinta-feira com p