Acabo de chegar no Rio de Janeiro depois de uma gratificante e proveitosa estada em Natal. Do dia 22 de dezembro ao dia 06 de janeiro desfrutei dessa formidável paisagem, da brisa refrescante e principalmente da amável hospitalidade dos amigos que há muito cultivo.
Visitar Natal, para mim, é rever amigos, aquecer afetos, ouvir histórias e ver coisas que sempre enriquecem o espírito e fortalecem a alma. Mas como visitante não posso deixar de ver as coisas e os fatos com um olhar crítico e no mínimo diferente - um olhar de fora. A expectativa de quem chega de fora é de ver, provar, ouvir e vivenciar sensações, imagens, aromas que tragam a diferença, o inusitado e se possível algo extraordinário e marcante nessa experiência.
Devo acrescentar que não sou um turista qualquer, pois tenho uma grande vivência de Brasil, ou seja, viajei por quase todos os estados brasileiros o suficiente para, mesmo no Nordeste, reconhecer o sotaque e as diferentes manifestações culturais, a culinária e a história peculiar de cada estado.
Por isso estranhei a apresentação do espetáculo "Natal em Natal", apresentado nos dias 22 e 23 de dezembro, no Campus da UFRN. Nada do que vi nesse espetáculo tem a ver com a preciosa e delicada expressão dos "autos de natal" tão bem documentados por Câmara Cascudo, Antonio Bento e Mario de Andrade, para citar os que já li.
Chamar de multimídia um espetáculo que se limitou a instalar telões ao fundo do palco com imagens óbvias e repetitivas que competiam com a ação do palco ao mesmo tempo em que cometia a deselegância de deixar às escuras a soprano que tão bem interpretou a "Canção Praieira" é no mínimo um exagero semântico.
Será que as "luzes" estavam reservadas unicamente para os astros globais?
Se o propósito do espetáculo foi o de homenagear a cidade, e, portanto a cultura local porque a contratação de dois artistas de fora que, sem questionar o talento de cada um, mal ensaiaram o espetáculo porque chegaram na véspera.
Será que não havia um texto, no rol da produção teatral de Natal mais adequado para uma celebração do nascimento de cristo que o enterro de Morte e Vida Severina, em que pese sua qualidade como obra prima da literatura brasileira?
Dá pra aceitar como balé aquele exercício ginástico ao som do manguebeat pernambucano? E o que isso tem a ver com o tema do espetáculo?
E as músicas inseridas bem ao gosto do repertório de São João de Caruaru da Elba Ramalho, para tudo acabar num grande forró, para não falar em Carnaval
Dá pra aceitar o Lázaro Ramos, um baiano, vestido de malandro carioca com ginga de jogador de capoeira repetindo maquinalmente o texto passado pelo ponto eletrônico?
Dá pra aceitar pacificamente a tortura imposta à Dona Militana, uma cena patética que chegou a gerar uma certa impaciência do público?
O curioso é que o diretor do espetáculo Moacir Góes, afirmou em entrevista aos jornais, que depois do espetáculo ele poderia ser considerado um "gênio ou um incompetente". Penso que nem uma coisa nem outra, apenas "multimídia" traduzindo: muita mediocridade.
No mesmo dia do "Natal em Natal", que foi anunciado como um presente da Prefeitura ao povo da cidade, o Governo do Estado realizava o espetáculo "Presente de Natal", num palco em frente ao Palácio de Governo.
No "Presente de Natal" a proposta do espetáculo buscava integrar as varias manifestações folclóricas da região numa estrutura de auto de Natal. Aqui o despreparo dos grupos, a ausência de uma direção profissional criou um espetáculo fraco, amadorístico com graves deturpações, pois pastoril não é circo e coco não é frevo.
Não é o figurino que faz o bom dançarino e nem a abundância de componentes que determina a beleza de uma coreografia. Tem que haver trabalho, pesquisa, suor, comprometimento com a qualidade e acima de tudo respeito para com a tradição cultural de um povo.
Mas o mais importante de tudo isto é a form
Natal e a globalização
Por Joatan Vilela Berbel - Chamar de multimídia um espetáculo que se limitou a instalar telões ao fundo do palco com imagens óbvias e repetitivas que competiam com a ação do palco ao mesmo tempo em que cometia a deselegância de deixar às escuras a soprano que tão bem interpretou a "Canção Praieira" é no mínimo um exagero semântico. (Leia Mais)
Segunda, 02 de Fevereiro de 2004 às 08:32, por: CdB