Narciso e Goldmundo é o título de um romance de Herman Hesse que fez a cabeça da minha - caramba! - juventude. São dois amigos que vivem num convento, na Idade Média. Narciso é o intelectual reflexivo da dupla. Ele não é narcisista, não. Na verdade é um intelectual apaixonado, mas apaixonado pelo rigor do próprio olhar, pelo acurado de seu pensamento. É um ser que vive em espaços interiores, ancorado em seu íntimo para poder discernir com mais lucidez os contornos de sua visão de mundo. Acho que foi com Narciso (além de outros mestres em carne e osso) que aprendi a pensar.
Goldmundo é o contrário. Também é um intelectual. Mas é um intelectual voltado para o mundo exterior. Atira-se pelos caminhos e descaminhos, pelos atalhos e pelas vastidões, enfrentando os amores impossíveis, as paixões irrecusáveis, os ódios acendrados. Cada passo que dá é uma viagem, cada viagem que empreende é um novo passo em sua formação. Volta, sempre, coberto pelas cicatrizes, envolto pelas lembranças, com o pensamento revolto pensando na próxima partida. Foi com Goldmundo (além de com a vida em carne e osso) que aprendi a amar.
Ao mesmo tempo em que as diferenças os separam, há entre ambos uma simbiose tal que aos poucos vai se delineando a questão, no romance, de se um estará presente para amparar o outro no momento do seu trespasse, isto é, na chegada ao destino, tanto do pensamento como dos caminhos: a morte. A resposta, deixo que o leitor e a leitora lembrem ou descubram. Mas o fato é que eles são almas, mais que isso, corpos companheiros e inseparáveis.
Lembrei-me dessa leitura ao presenciar num dos tantos debates do momento as perplexidades de meus companheiros e de mim mesmo, de nós, as esquerdas. A USP, junto com as outras universidades estaduais de São Paulo, está em greve. Também está portanto a aguerrida Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a nossa fefeléch, que é como dizemos a sigla FFLCH. Na assembléia da faculdade, ao lado das análises, algumas expressões de desânimo, de desacorçoamento, de derrisão: "a desilusão que passamos...", "as surpresas que tivemos de engolir...". À boca pequena, observações vingativas: "não voto mais nesse partido para nada [o PT]", quando não um sonoro (embora dito baixinho) "não voto mais", "não acredito em mais nada" etc.
Confesso que ali tive meu momento de Narciso. Foi um momento ambivalente, porque ao mesmo tempo me vi como Narciso e fiz uma leitura penetrante do personagem. Pensei: nós, as esquerdas, somos bons para tentarmos enquadrar o mundo em nossas molduras de pensamento. Deixando de lado os sectarismos bobos, as esquerdas têm uma tradição de rigor no pensamento que devia ser invejável para todas as outras correntes, se estas em geral não fossem, elas sim, narcisistas, incapazes de ver os outros, a não ser para ler as vantagens possíveis para seus próprios ganhos, sem qualquer sombra de desprendimento.
Desprendimento, as esquerdas têm. Mas até um certo ponto. Até o ponto de terem de olhar, não só para o mundo, mas para as suas próprias molduras de pensamento, e revê-las a fundo perdido. Estamos sempre prontos para vermos como o mundo cabe na nossa consciência; não raramente temos dificuldades de olhar com uma certa humildade generosa para tentar ver como a nossa consciência pode agir num mundo de difícil percepção.
Fiquei pensando na eleição de São Paulo, por exemplo. Se a eleição de Porto Alegre vai ter um rasgo ideológico profundo, a de São Paulo vai ser fortemente marcada por um caráter de classe, de luta de classes (num dos debates Emir Sader fez referência a esse caráter), ou o que dela resta. Vai ser o povão da periferia versus a burguesia cortesã e a classe média, aquela de feição conservadora. Estou falando de perfis gerais, vejam bem: é claro que nesses perfis há recortes e mais recortes, há atalhos e remansos especiais, que cortam para muitos lados. Mas esse caráter geral e universalizante vai existir, e vai acabar despontando.