Rio de Janeiro, 06 de Novembro de 2026

Não se esqueçam: há mais corpos no mar

Terça, 20 de Setembro de 2011 às 08:14, por: CdB

Domingopassado, dia 11, foi comemorado no Chile o 38º aniversário do golpe de Estadode 1973, liderado pelo General Pinochet e por centenas de oficiais chilenostreinados pelo governo dos Estados Unidos na polêmica Escola das Américas.

Comoem todos os anos, milhares de pessoas marcharam pelo direito à memória, àverdade e à justiça, a partir do centro de Santiago até o Memorial do DetidoDesaparecido e Executado, construído no Cemitério Geral, ao norte da capital.

Umasolitária mulher no cemitério, sentada em um banco, tinha em suas mãos umcartaz com a frase: "Há mais corpos no mar... por que não os procuram?”

Comuma voz entristecida, que cortava a alma, explicava: "Há 38 anos levaram meucompanheiro e ainda espero encontrar seu corpo”.

Porsi só, o cartaz não expõe a trágica história dos nossos mortos. Para melhor secompreender a profundidade da mensagem dessa mulher é necessário referirmo-nosa dois acontecimentos.

Primeiro,ao acidente com um avião militar que há mais de uma semana caiu ao mar com 21passageiros a bordo, entre eles o apresentador mais famoso da televisão chilena,Felipe Camiroaga.

Obviamente,todos os recursos do Estado foram disponibilizados para localizar os corposdessas vítimas, e o Exército, a Marinha e a Força Aérea têm realizado esforçosextraordinários para cumprir essa missão. Até o dia 14 de setembro, haviam sidoencontrados dezessete corpos, nas proximidades da Ilha Juan Fernandez.

Osegundo acontecimento é bem mais remoto. Estima-se que tenha ocorrido em 1978,quando a ditadura de Pinochet realizou uma operação estranhamente chamada de"Retirada de Televisores”, que consistiu em localizar, no sul e norte do Chile,as valas clandestinas com os corpos dos presos desaparecidos que eles mesmoshaviam assassinado anos antes. Desta feita, o objetivo era desenterrá-los e emseguida lançá-los ao mar para que nunca fossem encontrados nem por seusfamiliares, nem muito menos pela justiça.

Eisaí o significado do doloroso recado da mulher: enquanto hoje se buscam oscorpos das pessoas recentemente desaparecidas no referido acidente aéreo, elarecorda a toda a sociedade chilena que "há mais corpos no mar”.

Seuato remete a uma fotografia tirada no Cemitério nº 3, em Iquique, de familiaresde presos desaparecidos, que se encontra no Mausoléu Memorial "Para que NuncaMais”, com um cartaz simples e direto: "Que o exército nos entregue os corposdos presos desaparecidos”.

Passaram-se38 anos do golpe militar. No entanto, milhares de famílias de desaparecidospolíticos do Chile, como de tantos outros países, têm o direito de saber ondeestão seus entes queridos e exigir que se faça justiça.

Portudo isso, causa revolta e indignação assistir-se ao intensivo emprego deesforços militares no acidente da Ilha Juan Fernandez e lembrar o abandono emque outros cidadãos chilenos ficaram, após a transição da ditadura para umademocracia que ainda não chegou para todos.

Oxaláa sociedade chilena, com a experiência dessa nova tragédia que nos causa tantador, seja capaz de se colocar no lugar de tantas pessoas que continuam com seusfamiliares em situação de desaparecidos.

Oxaláos militares, em gesto verdadeiramente patriótico e superando seu passadosangrento, trabalhem com a mesma energia para encontrar os corpos de seuscompatriotas covardemente eliminados.

Neste18 de setembro, em que o Chile completa 201 anos de independência, seria umverdadeiro presente que as Forças Armadas assumissem essa tarefa e, assim,começássemos a escrever nossa história com autênticos gestos de fraternidade,honra e coragem.

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