Num cadernode anotações, encontro um registro datado de 28 de fevereiro de 1999. Nessedia, em Guarapari, li uma entrevista do Ministro José Augusto Delgado,publicada na revista "In Verbis”, órgão do Instituto dos Magistrados do Brasil.
Este númeroa que me refiro é de novembro de 1998.
Ao ler aentrevista de José Augusto Delgado fiquei feliz de verificar que a toga não odescomprometeu dos deveres da cidadania. Delgado alertava, nessa entrevista,para o perigo das privatizações de empresas públicas, que então ocorriamamplamente no Brasil. E observava que o Estado estava quebrando apotencialidade de sua soberania.
A observaçãode José Augusto Delgado, infelizmente, não se perdeu no tempo. A fidelidade àPátria requer vigilância permanente.
Opronunciamento de um magistrado de alto tribunal do país, a respeito de um temapolítico, também corroborava atitude que sempre assumi dentro da magistratura.O que é defeso ao juiz é a política partidária, não o posicionamento em face deassuntos de relevância pública, de interesse nacional.
A leitura daentrevista, naquele ano de 1999, fez-me recuar vinte anos no tempo. Lembrei-meda visita que fiz a Natal, em 1979, quando lá José Augusto Delgado era JuizFederal e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Convidou-mepara ministrar um seminário na cidade. Recebeu a mim e a Teresinha, em suacasa, juntamente com sua esposa, Dona Maria José.
Em julho de2005, voltamos a Natal.
De regressoa Vitória, publico em "A Gazeta” o artigo "Gestos que falam” (20/07/2005).Republico o mesmo texto no jornal "Tribuna do Norte”, de Natal (edição de 18 denovembro de 2005), com o título "Um capixaba reverencia Câmara Cascudo”.
José AugustoDelgado é hoje Ministro Aposentado do Superior Tribunal de Justiça e professoruniversitário em Brasília.
A íntegra damatéria, a que me referi acima, eu a transcrevo a seguir.
Estive emNatal. Visitei a casa onde viveu e morreu Câmara Cascudo. Carlos Drummond deAndrade chamou-o de brasileirista, palavra que o Aurélio e o Houaiss nãoregistram, diversamente do termo brasilianista, consignado nos dois dicionáriose aplicável, tanto a brasileiros, quanto a estrangeiros que estudam o Brasil.
Drummondcertamente viu que Cascudo merecia, singularmente, o título de brasileirista,esse Cascudo que disse "tintim-por-tintim a alma do Brasil em suas herançasmágicas, suas manifestações rituais, seu comportamento em face do mistério e darealidade comezinha.”
Esse Cascudoque, ainda segundo Drummond, "fez coisas dignas de louvor, em sua contínuainvestigação de um sentido, uma expressão nacional que nos caracterize e nosfundamente na espécie humana.”
A casa deCâmara Cascudo é um verdadeiro templo de brasilidade guardando relíquias quepodemos chamar de sagradas, não para diminuir o sentido do "sagrado”, mas paraelevar o "humano” a essa condição. Só mesmo um pesquisador que se debruçousobre o humano com o respeito que se deve ao "sagrado”, teria reunido tantoslivros, esculturas, pinturas, fotografias, moedas, fósseis, amuletos, imagensde santos, tudo a revelar a alma brasileira, na sua pujança, na suaindividualidade marcante, na sua beleza poética.
Trouxe nabagagem livros do grande escritor potiguar, inclusive reedições de obras que jáhavia lido na juventude.
Dos livrosque trouxe quero destacar "História dos nossos gestos”. O brasileirista deDrummond pesquisou os gestos brasileiros, mas muitos deles são gestosuniversais. O beliscão, a batida nas próprias nádegas, a mão no queixo, oestalo da língua, o beijo na mão, o dedo na boca, o abano da cabeça, o tirar ochapéu, o beijar a unha do polegar, o apertar a mão do adversário, o coçar acabeça, a mão na cintura, os dedos em cruz, o puxar os cabelos, o dobrar oindicador em anzol dirigindo-o ao palavroso plagiador, o beijar a própria mão,não sair pela porta por onde entrou, morder os próprios dedos e tantos outrosgestos foram pesquisados e analisados por Câmara Cascudo, num estudo cuidadoso,multidisciplinar, com retrospectos históricos, comparação de costumes,referências bibliográficas, enfim um trabalho científico de alguém quemergulhou com paixão na cultura popular para entender e valorizar todo o seusignificado.
Falar sobreCâmara Cascudo não está fora do contexto, no Brasil de hoje. Muito pelocontrário. Câmara Cascudo realça a grandeza do povo brasileiro, capaz de vencercom sabedoria as vicissitudes. Sua obra destaca a criatividade do espíritonacional que não precisa copiar do estrangeiro modelos para a solução de seusproblemas. Esse brasileirista invulgar nos faz ter orgulho de nossas origens,demonstra quanto de unidade está atrás da multiplicidade de paisagens, credos,escolhas políticas, caracteres individuais ou grupais.
CâmaraCascudo realimenta nossa esperança no Brasil.