Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Na Copa, não tem só futebol

Por Mário Augusto Jakobskind - Acompanhada por bilhões (eu disse bilhões) de telespectadores em várias partes do mundo, a Copa de 2014 está superando as expectativas, seja dentro ou fora de campo. A mídia conservadora dos mais diversos quadrantes falhou nas previsões de caos durante a competição.

Sexta, 11 de Julho de 2014 às 12:00, por: CdB
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Colunista destaca acontecimentos marcantes ocorridos durante a Copa, onde não houve o caos por muitos anunciado
Acompanhada por bilhões (eu disse bilhões) de telespectadores em várias partes do mundo, a Copa de 2014 está superando as expectativas, seja dentro ou fora de campo. A mídia conservadora dos mais diversos quadrantes falhou nas previsões de caos durante a competição. Vale sempre recordar esse fato que valeria uma retrospectiva detalhada sobre o comportamento de jornais como O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e revistas como a Veja e Época, entre outros, para não falar de publicações no exterior. Fatos envolvendo duas seleções mereciam mais destaque, mas aconteceu exatamente o contrário, ou seja, quase um total silêncio midiático. O primeiro coube à seleção da Argélia, que apesar de desclassificada nas oitavas de final ao enfrentar a Alemanha jogou um bom futebol. O destaque não divulgado por estas bandas é que os jogadores argelinos decidiram ajudar os mais desfavorecidos. Eles doaram para os palestinos vítimas dos confrontos com Israel o “bicho” de 6,5 milhões de euros ganhos com a classificação para as oitavas de final. Um gesto altruístico e que deveria servir de exemplo aos atletas de todo o mundo. O anúncio foi feito pelo jogador Islamam Slimani, defensor do Benfica de Portugal e integrante da seleção argelina. . O craque português Cristiano Ronaldo já havia também se solidarizado com os palestinos doando parte de seu salário para este povo que vem sofrendo as maiores atrocidades por parte de Israel, atualmente governado por um Primeiro-Ministro, Benyamin Neetanyahu, do gênero troglodita político. A propósito de palestinos, o Ministro aposentado do Superior Tribunal Militar(STM), um tal de Flavio Bierrenbach teve a cara de pau de afirmar, em artigo na Folha de S. Paulo, que não existe povo palestino e que a denominação foi uma jogada de marketing de Yasser Arafat. Ou seja, este senhor repete argumentos dos defensores do ideário sionista, que não querem de jeito nenhum que os palestinos tenham um Estado em terras sem solução de continuidade. Deveria ser informado sobre a atitude altruística da seleção argelina. Outra seleção que se movimentou revelando alto grau de politização foi a da Grécia. Também classificados para as oitavas de final, os jogadores decidiram que o “bicho” que tinham direito fosse investido para a construção e melhoramento das instalações desportivas em seu país, que atravessa uma grave crise econômica resultante de uma política de austeridade aplicada pelo capital financeiro. E como são as coisas, os fatos protagonizados pelos argelinos e gregos foram colocados em segundo plano pela mídia conservadora que preferiu destacar o que aconteceu com as seleções da Nigéria, Camarões e de Gana, que ameaçaram não disputar partidas se não recebessem a quantia a que tinham direito. O governo de Camarões fretou um avião para trazer o dinheiro ao vivo aos jogadores, fato bastante destacado pela mídia conservadora. O acidente com Neymar, como não poderia deixar de ser, comoveu a todos, não só no Brasil, como em outras partes do mundo. Discute-se até agora se a entrada do jogador colombiano foi intencional ou não. O próprio Camilo Zuñiga, responsável pela joelhada que fraturou uma vértebra do craque brasileiro lamentou o ocorrido e jurou que não teve a intenção de provocar o que aconteceu quase no final da partida vencida pela seleção brasileira por 2 a 1. A Fifa, que para o Presidente uruguaio José Mujica é constituída de “velhos filhos da puta” parece que não quer ajudar a Polícia carioca nas investigações sobre até onde vai uma quadrilha de venda de ingressos. E ao que tudo indica tem gente grande na jogada que vale muito mais do que um cartão vermelho. Enquanto a Copa do Mundo, ou, para alguns, a copa das copas, se desenrola e já quase chegando ao final, o mundo segue girando com fatos relevantes. Na Argentina, por exemplo, atualmente sob pressão dos fundos abutres, a Justiça condenou à prisão perpétua o ex-general Luciano Benjamín Menéndez e o ex-comodoro Luis Fernando Estrella pelo assassinato do Bispo católico Enrique Angelelli na época da ditadura militar. Ambos foram considerados responsáveis pelo assassinato que os detentores do poder de fato tentaram de todas as formas atribuir a um acidente. Por aqui também se utilizou esse esquema, brasileiros assassinados sendo as mortes atribuídas a confrontos ou, dependendo do caso, a acidentes. Tanto Menéndez, hoje com 87 anos e Estrella, de 81, foram também responsabilizados pela tentativa de homicídio a Arturo Pinto, que acompanhava o amigo Bispo. A Justiça revogou a prisão domiciliar dos assassinos e decidiu também que ambos fossem cumprir as sentenças em uma penitenciária comum. Outros três acusados, o então ditador Rafael Videla, o ex-ministro do Interior Albano Harguindeguy e o ex-policial Juan Carlos Romero, também eram acusados, mas como partiram para o inferno em 2012 e no ano passado, não foram sentenciados. A decisão judicial, sem dúvida, serve de exemplo para outros países, inclusive o Brasil. Fica demonstrado que crimes contra a humanidade são imprescritíveis. Muito diferente, portanto, da resposta do Ministério da Defesa brasileiro à Comissão Nacional da Verdade sobre o procedimento nos quartéis, entre os quais o DOI-CODI, da Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, na prática negando o que já se sabe, ou seja, os assassinatos a oposicionistas cometidos nos anos de chumbo. Já a Bolívia foi considerada pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) como o país da região com as mais altas reservas internacionais por pessoa, além de um baixo endividamento público e também um desempenho muito prudente em sua macroeconomia. A secretaria executiva da Cepal, Alícia Bárcena inclusive felicitou o governo de Evo Morales por gerir uma das melhores economias da região. Para ter uma ideia, o produto Interno Bruto (PIB) da Bolívia para 2014 está estimado em cerca de 32 bilhões de dólares, quatro vezes mais em relação ao de oito anos atrás. É o tipo da informação que dificilmente a mídia de mercado divulga, seja antes, durante, ou depois da Copa do Mundo de futebol 2014. Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil); preside a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI – seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla (no prelo). Direto da Redação é editado pelo jornalista Rui Martins com o apoio do Correio do Brasil.
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