Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Mundo em obras

Terça, 07 de Dezembro de 2004 às 09:08, por: CdB

As manhãs aqui em Valência acordam tarde. Ao nos levantarmos, preparando-nos para ir ao local do Fórum Mundial da Reforma Agrária, na Universidade Politécnica, os vampiros retardatários ainda estão se recolhendo. Alguns saem do bar aqui perto, que sintomaticamente se chama "Sin Perdón". Só as oito a "aurora dos dedos cor de rosa" começa a aparecer, e assim mesmo traz esses dedos acinzentados pela chuva e enregelados de frio. Às nove, enquanto escrevo estas linhas, os vampiros foram definitivamente afugentados pela britadeira da obra ao lado.

Outros vampiros rondam este encontro, e ontem foi um dia, o da abertura, dedicado a exorciza-los. "A maior mentira que o neo-liberalismo pregou", disse o ministro Miguel Rossetto em sua fala na cerimônia, "foi a de que a esquerda morrera". Não garanto a exatidão das palavras, também tratadas na excelente matéria de Marco Aurélio Weissheimer, mas garanto a do sentido. "Não morremos. Estamos aqui": era o corolário óbvio.

Quem "estamos aqui"? O colorido do encontro é variegado, como em todos esses novos processos abertos a partir dos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre e também de Mumbai. Os chapéus coco dos Andes se misturam aos trajes indianos; os paletós ocidentais se perdem entre os coloridos panos de África.

Há cerca de 600 pessoas presentes ao Fórum, contando os da organização, apoio e imprensa. A maior delegação vem da América Latina: 41 ou 42% do total. A delegação brasileira é grande, reunindo gente do MST, do Movimento Quilombola, da Contag, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e outras organizações esparsas.

Da Europa vêm 37% (21% da Espanha); da Ásia e da África vem outros 20 %, divididos quase igualmente. Há também representantes dos Estados Unidos e do Canadá, e um solitário viajante da Austrália. Chama-se Ibrahim, é muito jovem, não participa de nenhum movimento pela reforma agrária, mas gosta de viajar e se interessou pelo tema. Seu propósito agora é conhecer a América do Sul.

Há muita gente de ONGS; eu diria que os representantes de movimentos campesinos, os de organizações não governamentais, e os pesquisadores do tema se equilibram. Os primeiros são disciplinados até nas manifestações ruidosas, gritando palavras de ordem; os segundos são mais buliçosos, jovens e agitados; os terceiros mais sóbrios, quietos e sisudos.

Nas falas das primeiras mesas, impressionou muito a de um professor chinês, Zhang Xiaoshan, do Instituto de Investigação sobre a Economia Rural da China. Descreveu as conquistas da reforma agrária chinesa pós-revolucionária; ao mesmo tempo traçou um inquietante panorama da redistribuição hoje da posse da terra naquele país graças ao redesenho provocado pela industrialização e construção civil.

Essa e outras falas corroboraram um aspecto central destacado pelo Ministro Rossetto: o de que se para a geração dele (e a minha), o campo era caracterizado como lugar do atraso, uma espécie de "passado", enquanto o futuro pertencia à modernidade urbana, hoje não é mais assim.

O lugar do campo no espaço cultural mudou, portanto: hoje o pertencimento ao campo faz parte da construção do futuro, e em escala mundial, como se vê pelo exemplo chinês, o brasileiro e o de tantos outros países aqui presentes (são cerca de 70). Não há futuro para a humanidade sem o redesenho do sistema de propriedade nos países subdesenvolvidos, ou em crescimento, e sem que isso se reflita também em novos padrões culturais e de consumo em escala mundial.
Por isso a esquerda não morreu: o mundo permanece "em obras", a história não morreu, os vampiros das trevas e do obscurantismo ainda têm muito a temer das manhãs, ainda que tardias.

* Cobertura jornalística realizada com apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário do Brasil

Flávio Aguiar Flávio Aguiar é professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP) e editor da TV Carta Maior.

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