Mulheres negras são os três mil dos cinco mil casos de morte materna no país. Segundo Luís Eduardo Batista, pesquisador da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, este número é maior entre mulheres negras porque a qualidade da atenção prestada no serviço de saúde é "pior":
- Se a gente compara mulheres brancas e negras, as mulheres negras morrem duas vezes mais na maioria das regiões - afirma.
Batista lembra que se muitas mulheres negras têm menor escolaridade, menor renda e moram em regiões mais distantes dos melhores serviços de saúde, elas acabam não incorporando algumas práticas preventivas. Segundo ele, os dados das pesquisas que têm sido feitas quanto a pré-natal e qualidade de consultas mostram que "os serviços de saúde do país têm culpa nesse quadro".
- Ao não incorporar essas práticas elas também estão colaborando para um número maior de mortalidade - diz.
Rurany Silva, técnica da área de saúde da mulher do Ministério da Saúde acrescenta que essas pesquisas também apontam a "negligência" dos médicos durante as consultas:
- Além das mulheres negras fazerem menos consultas, os médicos as tocam menos. Tem também aquela coisa que a mulher negra é mais forte, sente menos dor, por isso, não dá ou demora mais a dar a anestesia à mulher negra na hora do parto - relata Rurany.
Para promover a eqüidade em saúde, Batista acredita que os gestores precisam ampliar os direitos dos usuários, além de produzir mais pesquisas no sentido de combater o racismo e as desigualdades sociais:
- O primeiro ponto é considerar essas desvantagens simbólicas e materiais como fatores determinantes ou catalisadores da vulnerabilidade da população negra. Outro ponto que precisa se intensificar é no que diz respeito à formação e informação. É importante utilizar nossos pólos de educação permanente como um processo de informação que permita discutir esses indicadores e falar da avaliação e monitoramento do processo e do acesso e qualidade dos serviços prestados. Quero dizer que há necessidade de implementar ações afirmativas no campo da saúde - ressalta.
Na tentativa de mudar esse quadro, o Ministério da Saúde irá lançar, nesta terça-feira, uma cartilha de atenção à saúde das mulheres negras.
- Esse livreto é uma iniciativa que está sendo lançada numa perspectiva de eqüidade no pacto nacional de redução da morte materna e neonatal e uma atenção especial às mulheres negras -explica Rurany.
O Ministério da Saúde criou um comitê nacional para discutir e acompanhar a saúde da população negra, no qual são definidas diretrizes, em parceria com outros ministérios e secretarias, com o objetivo de reduzir a mortalidade precoce nessa população e o impacto disso na sociedade.