Mais do que a diferença de gênero, a discriminação racial tem sido a grande responsável pela derrubada dos rendimentos médio das mulheres negras no mercado de trabalho da Região Metropolitana de São Paulo. É o que revela pesquisa da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), divulgada nesta quarta-feira (26). O estudo aponta que, em 2002, o rendimento médio/hora das negras é de R$ 2,52, contra R$ 6,10 de homens não negros. A remuneração das negras representa metade do ganho das mulheres de outras etnias e 75% da renda dos homens negros. A pesquisa aponta, ainda, que os rendimentos médios da população negra equivalem a 54,4% da média dos demais trabalhadores. Os resultados de 2002 mostram queda nas remunerações em relação ao ano anterior. Embora os rendimentos tenham caído vertiginosamente entre toda a população ocupada, a pesquisa mostra que a queda foi mais acentuada entre a população negra. No caso das mulheres, o rendimento/hora caiu 13,3%, enquanto entre as não negras a queda foi de 5,3%. A discriminação racial enfrentada pelas mulheres no mercado de trabalho não é nova. Tem raízes históricas, no período de abolição da escravatura, de acordo com Hélio Santos, colunista da Agência Carta Maior e fundador do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo. Segundo ele, desde as primeiras pesquisas da Seade, em 1985, as mulheres negras figuram entre a parcela mais excluída da população. "Em todo o Brasil, essa história se repete. A mulher negra encarna o que há de mais excluído no país, sobretudo se ela for trabalhadora rural e do nordeste", ressalta. O estudo referente a 2002 mostra, de fato, que os rendimentos das mulheres diminuem com o nível de escolaridade baixo. As maiores quedas de renda (12,9%) ocorreram entre as negras com ensino fundamental completo ou médio incompleto. Até mesmo entre a população negra com ensino superior incompleto, as reduções foram significativas: 12%, contra uma queda de 8,4% para a mesma escolaridade nas demais etnias. A queda generalizada de renda entre a população ocupada foi mais cruel para as trabalhadoras negras paulistanas autônomas (20%), que ganharam em média apenas R$ 1,61 por hora, contra R$ 4,48 recebido pelos autônomos de outras etnias. Para a socióloga Miguelina Vecchio, a baixa taxa de renda entre a população negra é resultado de postos de trabalho mais frágeis e precários, tradicionalmente ocupados pelos negros. "Diaristas e empregadas domésticas, principais ocupações das negras de baixa renda, são funções desvalorizadas pela sociedade brasileira. A queda dos rendimentos é apenas um dos reflexos do processo de discriminação e da negação da herança histórico-biológica da sociedade brasileira, que é predominante negra", destaca. Na opinião de Hélio Santos, este quadro só deve mudar com investimentos no que ele denomina políticas massivas de inclusão social, voltadas, principalmente, para as mulheres negras. "Estas medidas incluem construção de cooperativas de trabalho e de creches que atendam a mulheres pobres. Além disso, é necessário reforçar a auto-estima das negras", enfatiza. Taxa de desemprego entre as mulheres é a maior desde 1985 A taxa de desemprego entre as mulheres que moram na Região Metropolitana de São Paulo passou de 20,8%, em 2001, para 22,3% da População Economicamente Ativa (PEA) feminina em 2002. É o maior patamar de desempregadas desde 1985 e uma alta de 7,2% em relação ao ano anterior. O desemprego atingiu 16,5 % dos homens trabalhadores, contra 14,9% em 2001. De acordo com técnicos da Seade, as taxas de desemprego só não foram maiores entre as mulheres devido ao crescimento, ainda que pequeno, de 0,5% do nível ocupacional feminino. O setor de serviços foi o maior responsável por absorver a mão de obra feminina, apresentando aumento de 1,6% das vagas. A inserção desta pequena parcela de trabalhadoras só foi possível graças à diminuição de 1,5% das ocupações masculinas no setor de
Mulheres negras são as mais afetadas pela miséria em São Paulo
Domingo, 02 de Março de 2003 às 12:30, por: CdB