Festa tradicional para comemorar a chegada da primavera em Zurique, o Sechseläuten sempre foi um dos últimos bastiões reservados aos homens da cidade. Este ano, pela primeira vez, as mulheres também puderam participar da festa.
A Associação Fraumünster (Gesellschaft zu Fraumünster) vem lutando há 22 anos pelo direito de desfilar ao lado dos homens. Mas a batalha ainda não acabou.
A tradicional festa masculina da segunda-feira assume a forma de uma parada gay pela cidade até a praça Sechseläuten. É lá que o Böögg - um boneco representando o inverno, com a cabeça recheada de explosivos - é queimado durante a noite. Segundo a tradição, se o Böögg queimar rápido é sinal de que o verão será quente.
A novidade desse ano é que permitiram às mulheres desfilar ao lado das 26 corporações de homens – mas só como convidadas. A Associação Fraumünster desfila em segundo lugar, logo atrás da guilda Weggen.
"A Associação Fraumünster existe há 22 anos e há dez anos recebemos a autorização para desfilar antes da parada oficial", conta a presidente da associação Regula Zweifel à swissinfo.ch.
"Estamos muito felizes de poder integrar agora o cortejo principal, fazendo parte da paisagem cultural de Zurique."
O convite, no entanto, só é válido para 2011 e não prevê necessariamente a integração da associação - que não é oficialmente uma corporação - à Sechseläuten.
Incerteza
"Nós simplesmente não sabemos como vai ser em 2012. Estamos fazendo uma pesquisa de opinião nas corporações para saber se querem nos integrar ou não [como convidada anual]. Estamos na espera do resultado", explica Regula Zweifel.
Por que as corporações, que já foram associações poderosas na Idade Média, mas que agora não passam de simples “clubes do Bolinha”, têm sido tão contra à participação das mulheres continua sendo um mistério para a militante feminista.
"Acho que as corporações têm seus próprios rituais que não se encaixam com a forma de vida das mulheres. Quem sabe seja por isso que os homens preferem se manter entre si", disse.
Já faz tempo que a Associação Fraumünster vem pressionando para participar da parada. Ela foi criada com o objetivo de promover a consciência do papel desempenhado pela abadia Fraumünster, de onde tira seu nome, e da importância das mulheres, como as abadessas, na história de Zurique.
Um de seus principais eventos do ano é uma feira medieval, mostrando artes e ofícios da época.
O "Böögg" partindo em fumaças. O verão depende do tempo que o boneco leva para ser queimado. (Keystone)
TradiçãoAndreas Weidmann, porta-voz do Sechseläuten, diz que o convite veio em reconhecimento ao trabalho da associação com a feira e na promoção do papel das mulheres de importância histórica.
O representante da parada viril se apoia na história para explicar porque as mulheres ainda não foram totalmente autorizadas a participar do desfile.
"No início, as corporações eram associações de homens formadas por mestres artesãos, mas as mulheres também participavam", explica.
"Mais tarde essas confrarias passaram a cuidar só dos interesses dos homens. Como acontece em outras áreas da vida, há também as associações só para mulheres e esta é uma tradição que continua sendo mantida em Zurique", justifica o “porta-voz do Bolinha”.
Quanto à questão de continuar proibindo mulheres na parada, Weidmann prefere esperar o resultado do parecer das corporações, que sai no outono.
Outros convidados especiais
Fora isso, a festa da primavera de Zurique, que mantém o mesmo formato desde o início do século XX, não prevê grandes mudanças, até porque trata-se de uma festa tradicional.
E como reza a tradição, alguns convidados especiais também participam do cortejo. Esse ano, os ministros Johann Schneider-Ammann e Ueli Maurer, e um cantão, Basileia-Campo, que deu um ar ainda mais antigo à festa com suas lembranças romanas do sítio arqueológico da Raurica Augusta.
O desfile e a “execução” do Böögg são transmitidos ao vivo pela televisão pública suíça. Esse ano, o boneco levou 11 minutos e 56 segundos para se queimar todo.
"Isso significa que teremos um ótimo verão", disse Weidmann, acrescentando que a precisão do Böögg não é, obviamente, cientificamente comprovada.
Regula Zweifel disse que a Associação Fraumünster também convidou homens: Renzo Simoni é o CEO da AlpTransit Gotthard, os construtores do túnel mais longo do mundo sob os Alpes suíços que foi aberto no ano passado. Ele vem acompanhado por três mineiros.
"É também um sinal, pois foi preciso muita paciência para cavar o túnel do São Gotardo, os mineiros tiveram às vezes que enfrentar paredes de rocha sólida, mas no final tudo deu certo", disse, esperançosa, a representante das mulheres na festa de Zurique.
Isobel Leybold-Johnson, swissinfo.ch
Adaptação: Fernando Hirschy