O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, rejeita a proposta de formação de um governo de unidade nacional com a oposição nos moldes do formado no Quênia, segundo declarou nesta terça-feira um de seus porta-vozes.
– Quênia é o Quênia, Zimbábue é Zimbábue – disse George Charamba em um encontro de líderes da União Africana no balneário egípcio de Sharm e-Sheik.
– Temos nossa própria história de diálogo e de resolver impasses políticos de nossa maneira.A saída será definida pelo povo do Zimbábue sem interferência externa – disse ele, que afirmou que as críticas internacionais ao processo que reelegeu Mugabe "lembram um tempo em que o homem branco reinava supremo no Zimbábue. E esse período acabou para sempre". Charamba disse que o Ocidente "pode se enforcar mil vezes".
Pressão diplomática
Como candidato único, Mugabe foi declarado o vencedor do pleito e assumiu um novo mandato no último domingo, gerando uma onda de críticas internacionais questionando a lisura do processo eleitoral.
A comissão eleitoral do país disse que Mugabe recebeu 85,5% dos votos válidos, mas observadores da própria União Africana disseram que o pleito não atingiu os padrões da organização para eleições democráticas.
Robert Mugabe foi convidado e deve falar em um encontro de líderes da União Africana no balneário egípcio de Sharm el-Sheik que termina nesta terça-feira. A crise no Zimbábue está sendo o assunto principal do evento.
Correspondentes afirmam que se espera que os líderes africanos pressionem Mugabe a negociar com a oposição. Nos bastidores, é grande a pressão diplomática para a formação de um governo de unidade nacional.
Sanções
Entretanto, é baixa a possibilidade de que a ata final do encontro mencione sanções ou que deixe explicitamente de reconhecer o governo de Mugabe. Isso porque vários países africanos divergem quanto à profundidade das medidas e da pressão que poderiam ser adotadas sobre o regime Mugabe.
O presidente do Gabão, no cargo desde 1967 (o presidente africano a mais tempo no poder), disse que Mugabe deve ser aceito como o presidente eleito do Zimbábue. Robert Mugabe, que tem 84 anos de idade e está no poder desde a independência do Zimbábue, em 1980, é tido como um dos maiores nomes do continente na luta contra o colonialismo europeu.
Analistas acreditam que líderes africanos relutam em tomar posições que possam ser interpretadas pela opinião pública de seus países como demasiadamente pró-européia. Mesmo assim, alguns líderes já condenaram a reeleição de Mugabe.
O presidente de Serra Leoa, Ernest Koroma, disse acreditar que “o povo do Zimbábue teve negado seu direito democrático”.
O primeiro-ministro do Quênia, Raila Odinga, pediu nesta segunda-feira para que a União Africana suspenda o presidente do Zimbábue do bloco e defendeu que sejam enviadas tropas ao país para garantir que sejam realizadas eleições "livres e justas".
Também na segunda-feira, os Estados Unidos declararam desejar que o Conselho de Segurança da ONU imponha um embargo de venda de armas contra o Zimbábue.
Mas a aprovação de uma resolução nesse sentido é considerada improvável já que Rússia, China e África do Sul devem se opor a qualquer medida além da resolução já aprovada, que condena a violência contra a oposição no país.
Estados Unidos, Austrália e alguns países europeus impõe sanções limitadas ao Zimbábue, mas existe o temor de que medidas econômicas mais duras afetariam em particular a população do país, que já enfrenta uma das maiores inflações do mundo.
O chefe da agência de refugiados da ONU, Antonio Guterres, alertou que, se os países africanos não chegarem a uma solução para a crise, as conseqüências para todo o sul do continente podem ser bastante sérias.
Mugabe rejeita proposta de unidade nacional
Terça, 01 de Julho de 2008 às 07:48, por: CdB