Rio de Janeiro, 02 de Outubro de 2026

Mudança climática e segurança alimentar

Sexta, 22 de Julho de 2011 às 14:53, por: CdB

Conselho de Segurança da ONU ouviu argumentos de que a mudança climáticaé uma questão de segurança e paz em escala global. Mas não foi capaz de adotaruma decisão a esse respeito. O fato é que se tornaram fatores associados àsegurança coletiva global.

Ao mesmo tempo, a FAO, o braço agrícola da ONU, convocou uma reunião deemergência para o próximo dia 25, para discutir socorro para duas regiões aosul da Somália e uma ampla faixa do leste da África, incluindo Quênia eEtiópia, declaradas áreas de emergência alimentar. Estas regiões estãoenfrentando a maior crise de fome dos últimos 20 anos, com 3,7 milhões depessoas enfrentando o risco de morte por inanição. Elas estão passando por umperíodo muito longo e agudo de seca.

É certo que a mudança climática, ou pelo menos as anomalias climáticasassociadas a El Niño, tem um papel importante nessa nova onda de fome queassola uma parte da África. A seca já é em si um fator climático decisivo nestecaso. A agricultura africana depende muito das chuvas sazonais. Além disso, osuprimento de alimentos no mercado global continua problemático e o preço dosalimentos em alta. E parte da quebra de safra e da alta de preços se explicapor fatores climáticos. A produção da Rússia, do Meio-Oeste do EUA e da Chinafoi afetada por fenômenos climáticos. Na Rússia, foi a seca de 2010. No EUA, enchenteseste ano. Na China, enchentes, seguidas de severas secas. A FAO já alertou queo preço dos alimentos ficará em patamares elevados por muito tempo.

Outros fatores também contribuem para essa tragédia, pelo lado dasegurança alimentar global. Segundo o Valor Econômico, economistas daUniversity Purdue, no EUA, mostraram em estudo que:

"O atual período de estoques apertados e os preços relativamente altosdeverão continuar nos próximos um ou dois anos.”

Para os autores desse estudo, "no fim das contas, a questão não é apenasse as ofertas mundiais podem acompanhar os recentes aumentos de demanda, mas sepoderão manter o ritmo do crescimento da demanda ao longo do tempo”. Os preçosdos alimentos subiram 39% nos últimos 12 meses, segundo a matéria, usando dadosda FAO.

Os autores do estudo mencionado pelo Valor indicaram também a produçãode etanol no cinturão do milho no EUA e a demanda por alimentos da China, comofatores mais específicos afetando os preços dos alimentos este ano. De fato,pela primeira vez, este ano, o uso de milho para etanol superou o uso paraprodução alimentar, que sempre foi o principal. Mas a elevação da demandachinesa está diretamente ligada à redução da disponibilidade interna por causados fatores climáticos.

Por isso Achim Steiner, diretor executivo do PNUMA, o programa ambientalda ONU, disse ao Conselho de Segurança que a fome e a elevação do nível do marsão ameaças à paz e à segurança globais.

O alto preço dos alimentos e a fome têm relação direta mesmo com ainstabilidade política, como causa e como efeito. Na Somália, anos de conflitoe guerra civil produziram um estado calamitoso, especialmente no Sul. Desdejaneiro, quase 150 mil somalis fugiram dessas áreas, buscando abrigo no Quêniae na Etiópia, apenas agravando os problemas locais de segurança alimentar.Muitas crianças morreram no trajeto.

Já no Norte da África e no Oriente Médio, o alto preço dos alimentos foium dos ingredientes das revoltas que ainda abalam Egito, Tunísia, Líbia,Marrocos e outros países.

A insegurança alimentar tem a ver, também, com profundos e históricosdesequilíbrios distributivos internos e globais, como Amartya Sen já mostravahá três décadas, em seu excelente estudo sobre a seca e a morte por inanição naregião do Sahel. Os setores mais ricos da sociedade consomem além da conta, osmais pobres não conseguem pagar e às vezes sequer ter acesso aos produtosalimentares.

Sen mostrou como essa desigualdade distributiva operava internamente.Hoje está claro que o aumento do bem-estar em regiões emergentes (China,Brasil, Índia) mais o aumento do consumo nos países ricos fazem com que tanto aprodução doméstica seja consumida em maior quantidade, reduzindo os excedentesexportáveis, como esses países se tornem os principais importadores desseexcedente. Como têm mais renda real disponível, importam quase toda a produçãoalimentar em circulação no mercado mundial, deixando praticamente nada para osmais pobres, que têm menor poder de compra.

Esse problema distributivo não tem a ver com escolhas morais. Éestrutural: a renda cresce, as pessoas saem do território da pobreza, passam aconsumir mais; as pessoas em estratos superiores fazem upgrade de suas cestasalimentares e demandam mais alimentos nas faixas superiores de preços. Cria-seessa cadeia diferenciada de consumo de pessoas que têm óbvio direito aoalimento produzido domesticamente e importado que podem comprar. Com seuconsumo estão estimulando investimentos e geração de emprego e renda dentro e forade seus países. Esse movimento, em si positivo, tem como efeito colateraltotalmente involuntário, em um contexto de limites físicos, climáticos eeconômicos à produção agrícola, o aumento dos preços e a redução da oferta dealimentos acessíveis aos mais pobres.

O Conselho de Segurança não conseguiu aprovar mais que uma declaraçãoquase simbólica, de "preocupação” com o possível risco que a mudança climáticarepresenta para a segurança e a paz mundiais.

Mas é evidente, a olho nu, que essa ameaça é concreta e já há eventosresultantes dela. É impossível imaginar, por exemplo, a pacificação da África,sem que o problema da pobreza e da fome aguda sejam enfrentados. E esseenfrentamento demanda envolvimento e recursos dos grandes atores globais, ricose emergentes. Está claro que o agravamento das condições climáticas afetará aprodução agrícola global e imporá um quadro de insegura alimentar com altopoder de gerar conflitos disseminados. Sem falar dos imigrantes climáticos efugitivos da fome e dos conflitos, que passam a representar um problema sociale político nos países receptores.

A agenda climática é indissociável da agenda da pobreza e da fome. Todaselas são uma óbvia questão de bem-estar e de segurança global.

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** Enviado por Envolverde].

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