É indiscutível a importância da educação para o desenvolvimento de um país. Contudo, na contramão da garantia de direitos, 24 mil escolas da zona rural brasileira foram fechadas desde o ano de 2002. Para denunciar esse número alarmante e a precariedade das escolas em atividade, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realiza a Campanha Nacional contra o Fechamento de Escolas do Campo.
Membro do setor de Educação do MST, Alessandro Mariano informa que o movimento tem realizado, no marco da campanha lançada em março deste ano, audiências públicas nas assembleias legislativas de estados brasileiros como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná. Para o mês de julho, planejam uma audiência no Congresso Nacional, com o objetivo de ampliar as denúncias contra o fechamento de escolas.
O militante explica que o MST associa o fechamento das escolas ao desenvolvimento do agronegócio. "Onde o agronegócio mais se desenvolveu, criando monoculturas, a agricultura familiar não cresceu, houve êxodo rural e foi onde mais se fechou escolas”, esclarece.
Outro motivo seria a ampliação de recursos para transporte escolar. A partir disso, os municípios, com o transporte garantido, optaram por fechar escolas no campo e concentrar alunos em escolas da cidade. "Nós queremos sim que haja transporte escolar, mas para fazer o traslado dos alunos no próprio campo, não pra fechar escolas”, defende.
No Paraná, por exemplo, Alessandro citou dois municípios com sérios problemas nas escolas, situações que considerou "emblemáticas”. O primeiro deles é Queda do Iguaçu, onde está o assentamento Celso Furtado. "Lá tem cerca de 1.500 estudantes da educação infantil, que não são atendidos pelo município. Em 2007, nove escolas municipais foram construídas e hoje elas estão com o teto caindo, sem energia, sem biblioteca, uma situação revoltante”, revela.
Mesmo quando há escolas, as crianças enfrentam outro desafio: chegar até elas. Segundo Alessandro, não há transporte escolar suficiente e de qualidade; as kombis utilizadas não têm freio ou faltam os vidros das janelas, pondo em risco a vida de alunos e professores. O município também não garante merenda escolar e material pedagógico.
Já no município paranaense de Ortigueira, só neste ano vão ser fechadas 22 escolas do campo. O MST ainda não tem levantamento de quantas crianças, com o fechamento das escolas, terão de ser transportadas até a cidade para assistir às aulas.
"Isso repercute na qualidade da educação. No Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), escolas de assentamento tiveram os piores índices”, enfatiza.
Alessandro também ressaltou que a educação no campo é diferente da educação na cidade, pois se relaciona com as condições específicas da vida na zona rural. "É uma escola sob a perspectiva do campo, as crianças aprendem as mesmas matérias que nas escolas da cidade, mas com essa abordagem diferente, ligada ao contexto do campo”.
Para o MST, a luta por educação no campo se liga à própria luta por Reforma Agrária, principal bandeira dos camponeses. "Não tem como pensar em Reforma Agrária, desenvolvimento social dos assentamentos, sem ter educação. O acesso à escola se associa ao desenvolvimento cultural e social no campo e é garantia de direitos aos sujeitos que ali vivem, fortalecendo a permanência dos pequenos agricultores no campo e até melhorando a produção dos alimentos”, finaliza.
Dados
De acordo com o MST, no Brasil, 9,7% do total da população com 15 anos ou mais de idade é analfabeta, ou seja, 14,1 milhões de brasileiros. Outro dado nada animador é que um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional – lê e escreve, mas não consegue compreender, interpretar ou escrever um texto. Entre as pessoas nessa condição, acima dos 15 anos de idade, mais de um terço vive no Nordeste e, destas, mais da metade vive no meio rural.