A revista Terra, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), editada bimestralmente há uma década, traz na sua última edição a crítica de movimentos sociais e habitantes do semi-árido brasileiro às obras de transposição do Rio São Francisco. Segundo o relato da repórter Tatiana Merlino, um grupo de 4,2 mil índios da tribo Truká, com o apoio de outros 2 mil militantes, ocuparam o canteiro inicial das obras, onde trabalhariam os homens do Batalhão de Engenharia do Exército. O movimento de resistência ao projeto que consta do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, já dura um mês.
Leia a matéria, na íntegra:
Comunidades em luta contra transposição do Rio São Francisco
Para indígenas e movimentos sociais do semi-árido nordestino, o problema central da seca na região é o mau gerenciamento da água.
Resistir. É em nome dessa luta que os 4.200 índios Truká que vivem nas 25 malocas da aldeia localizada na Ilha de Assunção, nas proximidades de Cabrobó (PE), decidiram fazer uma ocupação em 26 de junho da área em que o Batalhão de Engenharia do Exército deu início em meados desse mesmo mês às obras da transposição do Rio São Francisco. Junto com outros dois mil militantes de movimentos sociais, eles interromperam os trabalhos para construção do canal de aproximação do Eixo Norte do projeto, destinado a levar água do rio para bacias hidrográficas de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê que até 2010 R$ 6,6 bilhões sejam investidos no projeto, que iria beneficiar 12 milhões de pessoas, segundo o governo.
Além disso, o acampamento faz a denúncia de que o terreno é terra tradicional da etnia indígena Truká. “Todos se consideram irmãos e pretendem defender a terra dos Truká, que foram expulsos da região no passado”, afirma Alzeni Tomás, da Comissão Pastoral dos Pescadores (CPP).
Rolo compressor
Inconformado, o cacique dos Truká, Aurivan dos Santos Barros, conhecido como Neguinho Truká, critica o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Esse projeto nos deixa muito preocupados. O presidente fez um acordo e não cumpriu”, afirma. Neguinho lembra que após a greve de fome de 11 dias do frei Luiz Flavio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA) em outubro de 2005, “Lula havia prometido rediscutir o projeto da transposição. Agora vem com um rolo compressor em cima da gente”, avalia.
A ilha onde os indígenas vivem divide os estados da Bahia e Pernambuco e possui 6.200 hectares. Segundo Neguinho, os Truká são os maiores produtores de arroz do Pernambuco, mas a produção ficará ameaçada caso o projeto da transposição seja implantado. Houve uma diminuição da diversidade de peixes e a plantação foi prejudicada desde a construção da barragem de Sobradinho (BA), entre 1973 e 1979, controlada pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), ligada ao Ministério de Minas e Energia.
“Com a transposição o quadro tende a se agravar”, aponta o cacique. De acordo com ele, a cultura do povo indígena é diretamente ligada ao rio e, “se o rio morrer, a nossa história morre junto”. Além do arroz, os indígenas também produzem cebola, melancia e tomate para comercialização, “mas com o controle do nível das águas pelo Estado, podemos perder tudo”, lamenta.
Slogan de campanha
A afirmação do governo de que a obra iria matar a sede dos nordestinos com a transposição é “mentira, ‘slogan’ de campanha”, acredita o cacique.
A tese do governo de que existe um déficit hídrico na região também é desmentida pelo indígena. Para ele, o que o Nordeste precisa é de democratização das águas. “Se isso acontecer, 90% da demanda será atendida. O que vemos hoje são grandes açudes localizados dentro de fazendas. Isso é privatização da água”.
O projeto de transposição do Rio São Francisco também irá prejudicar os qu