Rio de Janeiro, 06 de Janeiro de 2026

MST amplia denúncias contra transgênicos e agrotóxicos em uso no país

Participantes da conferência Alimentação Saudável: um Direito de Todos e Todas, do MST, afirmam que só com a agroecologia é possível derrubar o agronegócio

Domingo, 07 de Maio de 2017 às 11:37, por: CdB

Participantes da conferência Alimentação Saudável: um Direito de Todos e Todas, do MST, afirmam que só com a agroecologia é possível derrubar o agronegócio

 
Por Redação, com Cida de Oliveira/RBA - de São Paulo

 

O fortalecimento e ampliação da agroecologia como única alternativa para a produção de alimentos saudáveis – sem o uso de sementes transgênicas e de agrotóxicos – para toda a população brasileira está ganhando mais espaço na agenda do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

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Participantes da conferência Alimentação Saudável: um Direito de Todos e Todas, do MST, defenderam a agroecologia

Reunidos desde a última quinta-feira em São Paulo, lideranças e militantes do movimento têm debatido o tema com representantes de comunidades tradicionais de todo o país, como indígenas e quilombolas, e de entidades de agroecologia, saúde pública e defesa do consumidor. Essas atividades são paralelas à feira que oferece grãos, frutas, verduras, legumes, doces, geleias, queijos, sementes e plantas produzidos em assentamentos de várias regiões do país. O evento se encerra neste domingo.

— Pressionados por multinacionais e pelo capital, estamos contaminando todo o planeta. Produzir carros e extrair petróleo se tornou mais importante do que preservá-lo. A terra é o alicerce da vida, e a comida seu fruto. Por isso não pode ser propriedade particular, para obtenção de mais lucro por companhias que produzem transgênicos e mais venenos, ou por aqueles que estão de olho em tudo que está debaixo dela. Mas para o usufruto e libertação da humanidade — disse o ex-presidente e agora senador uruguaio Pepe Mujica a um grupo de jornalistas, na manhã deste domingo.

Diversidade

Mujica foi o último a discursar na conferência Alimentação Saudável: um Direito de Todos e Todas. Ele voltou a reforçar a importância da cultura da terra, camponesa, e das coisas simples, como o hábito de cozinhar.

— Não se trata de nostalgia, mas o costume faz parte da cultura da terra, da comida. A civilização baseada na ganância produz um consumidor que trabalha permanentemente, sem ter tempo para os afetos e para o amor — disse, numa "reverência à terra própria de um agricultor", conforme destacaria mais tarde o coordenador geral do MST, João Pedro Stédile.

Resumindo a mensagem da conferência, Stédile destacou que o agronegócio destroi a figura do agricultor, que sabe cultivar a terra.

— A função da terra e nossa sonhada reforma agrária é a produção de alimentos saudáveis para todos – e sem veneno –, respeitando a terra. O alimento da diversidade, que não pode ser mercadoria, mas um direito. Espero que os governos aprendam essa lição — afirmou.

Insegurança alimentar

A conferência contou ainda com a participação do ex-ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff, Alexandre Padilha, e da apresentadora Bela Gil, que enfatizaram a insegurança alimentar no país sobretudo para as populações mais pobres, com o uso de sementes transgênicas e agrotóxicos, e a produção de alimentos ultra-processados, à base de substâncias químicas, que em vez de alimentar, adoecem as pessoas, causando obesidade e uma infinidade de outras doenças.

— A boca é a porta da nossa alma. Não basta matar a fome. Temos de alimentar a alma e não a indústria de alimentos e de venenos — disse Padilha, lembrando frase do escritor uruguaio Eduardo Galeano, morto em 2015.

Ele destacou ainda que, na perspectiva de que "a gente quer comida, diversão e arte", comida é o alimento de qualidade, nutritivo, de base variada, sem venenos e aditivos, produzido pela agricultura familiar. E não alimentos industrializados, com aditivos químicos para "enganar o cérebro com falsa saciedade", produzidos com a partir de uma única base, como o milho ou a soja, geralmente transgênica e carregada de agrotóxicos.

Agroecologia

Apoiadora da reforma agrária e da agroecologia, a apresentadora Bela Gil contestou o discurso da indústria de que somente com o uso de transgênicos e agrotóxicos é possível produzir em larga escala para alimentar a população mundial. Para ela, a fome no mundo é causada por problemas na distribuição dos alimentos, e não na produção.

— A população precisa entender a importância da reforma agrária como lógica que permite outro modelo mais saudável de produção, sem venenos que matam os ecossistemas e adoecem a gente — disse.

Bela convidou a plateia a assinar a plataforma #ChegaDeAgrotóxicos. Ela defendeu o engajamento social para driblar o oligopólio de empresas fabricantes de sementes transgênicas e de agrotóxicos, em apoio a políticas que fortaleçam a agroecologia e para taxar os venenos, que hoje são isentos de impostos.

Participaram ainda a atriz Letícia Sabatela, que mesmo sem se aprofundar defendeu a soberania alimentar. O economista Paul Singer e o ator Sergio Mamberti compuseram a mesa, mas não se pronunciaram.

Pacote do veneno

À tarde, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida fez o lançamento oficial da plataforma #ChegaDeAgrotóxicos. A campanha já foi lançada virtualmente, em 16 de março. O objetivo, com a ferramenta, é envolver a população em pressões pela aprovação do Projeto de Lei 6670/2016, que institui a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA). E também barrar o avanço do Pacote do Veneno, composto por projetos que revogam atual legislação do setor.

Ao mesmo tempo em que acelera a tramitação de projetos de leis desfavoráveis (Pacote do Veneno), o Congresso atrasa a tramitação daqueles de interesse da sociedade, como o da PNaRA. Segundo o deputado federal Nilto Tatto (PT-SP), até agora o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) não instalou comissão especial para analisar o PL.

— “É fundamental uma campanha para pressionar os partidos a indicar os nomes — disse Tatto.

Conforme explicou, mesmo assim o PL vem sendo discutido. E já há audiências públicas para discutir o tema sendo agendadas. Em 8 de junho, será debatida na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto, interior paulista.

Água envenenada

Na mesa que reuniu representantes do MST, Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Ainda, do Greenpeace e da Central Única dos Trabalhadores (CUT). O destaque foi dona Alda Silva, 70 anos, líder kaiowá moradora de Dourados, no Mato Grosso.

Em sua fala, dona Alda contou os dramas de quem vê o aumento do adoecimento e morte de crianças. Os crimes em sua aldeia, devido aos agrotóxicos, muito usados na região. Falou, ainda, dos percalços em busca de ajuda e justiça.

— A luta não é fácil. Já morreu muita criança. Não é fácil ficar vendo tanta criança morrendo por causa de venenos. A gente conta para as autoridades o que se passa na nossa aldeia, mas ninguém se preocupa. É um genocídio. Quando você é um índio, ninguém quer saber. É uma dor que a gente está sentindo. Adotei uma criança, que morreu depois de beber água envenenada. Contei no Ministério Público. Temos que lutar, acabar com esse agrotóxico — concluiu.

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