Numa avaliação realista, 2004 não pode ser considerado um ano de conquistas dos movimentos sociais se analisado da perspectiva da relação com o Governo Lula. Invicto, o núcleo duro logrou reforçar a ortodoxia econômica com a elevação do superávit primário, a manutenção das altas as taxas de juro, o cumprimento dos acordos com os credores internacionais, etc; o salário mínimo ficou muito abaixo das promessas de Lula e das expectativas do setor sindical; as metas do Plano Nacional de Reforma Agrária novamente não foram cumpridas; o agronegócio, eleito principal adversário pelas organizações camponesas, continua ocupando lugar de destaque nas prioridades do Planalto, e o crescimento do país não veio acompanhado de um desenvolvimento capaz de minimizar as desigualdades sociais.
No entanto, na contramão do que poderia ser considerada uma derrota para as oligarquias, para o mercado financeiro ou para a direita do Partido dos Trabalhadores, os movimentos sociais quase que unanimemente consideraram 2004 um ano de grandes logros. O otimismo se explica pela avaliação de que, depois de um período de perplexidade e paralisia frente aos rumos do governo, tanto as esquerdas "frustradas" quanto as "rancorosas" conseguiram sair de seu estado de letargia e se reaglutinaram num processo de construção de alternativas, seja nos partidos políticos (o recém-nascido PSOL e o 'adolescente' PSTU), seja nas redes de organizações da sociedade civil.
Entre os movimentos sociais, isto se fez presente na concretização de uma articulação mais orgânica dos distintos setores - no âmbito da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS, que congrega de MST e CUT às pastorais sociais, a UNE, o movimento de mulheres e o de moradia), na Via Campesina Brasil, na campanha conta a ALCA ou no movimento de apoio à Venezuela, entre tantos outros -, no sentido de se detectar aspectos comuns que extrapolam as lutas específicas e se construir conjuntamente propostas de alternativas macro-políticas para o país.
Movimentos e partidos
É claro que as relações com o governo e o PT sempre tiveram e terão um papel fundamental para os movimentos sociais, base histórica do partido. Mas na avaliação do advogado Ricardo Gebrim, coordenador da Campanha contra a ALCA e membro da Consulta Popular, a eleição de Lula finalizou um ciclo de 25 anos da esquerda brasileira que, muito grosso modo, se construiu e se fixou neste objetivo. Ou seja, a chegada de Lula à presidência foi, por assim dizer, a conclusão de um projeto, o que acabou por pulverizar as esquerdas num cenário onde a própria compreensão do governo é tudo menos homogênea.
- Isso faz surgir várias forças políticas, o que é legítimo. Mas num momento como esse (a guinada ao conservadorismo de um governo eleito para promover mudanças), passa a ser fundamental uma articulação onde se é capaz de planejar estratégias conjuntas para que não ocorram trombadas. Isso aconteceu na CMS que, no essencial, abarcou o campo dos que lutam - explica Gebrim.
Não que a CMS seja uma unanimidade. Para Jorge Martins, membro da direção executiva da CUT ligado às correntes de esquerda da central sindical, a Coordenação dos Movimentos Sociais não consegue expressar o conjunto das forças progressistas, muito por excluir novos agentes como o PSTU e o PSOL, partidos que hoje fazem uma oposição à esquerda ao governo Lula.
- No início do ano, muitos movimentos acreditavam que o governo Lula ainda estaria em disputa, hipótese que foi caindo por terra com as repetidas reafirmações da manutenção do conservadorismo da política econômica. A CMS, embora seja muito importante, não radicaliza. Quer dizer, nós, enquanto esquerda do PT, continuamos apoiando o Lula, mas ele não foi eleito para derrotar os trabalhadores. 2005 e 2006 serão anos em que devemos avaliar se é correto ou não votar no Lula - afirma Martins.
Gebrim rebate: "os movimentos so