Rio de Janeiro, 21 de Maio de 2026

Morre cardeal filipino e ícone do "Poder do povo"

Terça, 21 de Junho de 2005 às 07:51, por: CdB

O cardeal filipino Jaime Sin, que foi uma importante força por trás das revoltas populares que destituíram dois presidentes, morreu nesta terça-feira, deixando um país ainda muito dividido pela política.

Sin, chamado certa vez de "comandante-chefe do divino" pelo ex-presidente Fidel Ramos, passou dois dias em uma UTI devido a uma infecção provocada por um antigo problema renal.

- A história vai marcar este dia de tristeza, quando um grande libertador do povo filipino e um paladino de Deus faleceu.O cardeal Sin deixa um legado de liberdade e justiça, forjado em uma profunda coragem pessoal -disse a presidente Gloria Macapagal Arroyo em nota oficial.

A principal rádio católica do país, que tem a maior população dessa religião na Ásia, tocou hinos para homenagear Sin, 76, que se aposentara em 2003 do cargo de arcebispo de Manila.

Seu sucessor, o arcebispo Gaudencio Rosales, em seguida comandou uma vigília, agitando incenso sobre o corpo de Sin diante de uma catedral lotada, onde estava inclusive Corazón Aquino, que se tornou presidente após a famosa rebelião popular de 1986 contra a ditadura de Ferdinand Marcos. Bispos, cardeais e políticos passaram diante do caixão de Sin, enfeitado com flores.

- Estou me sentindo muito sozinho sem o cardeal. Ele era um líder tão bom para o povo filipino - disse Julieto López, que há 20 anos vende itens religiosos em frente à catedral.

De origem chinesa, Sin ficou mundialmente famoso ao liderar 1 milhão de filipinos que formaram barreiras humanas na principal rodovia que serve Manila e protegeram um grupo de 300 militares rebeldes contra os tanques da ditadura Marcos.

Suas mensagens radiofônicas em apoio aos amotinados desencadearam a hoje legendária revolta "do Poder do Povo", que levou Marcos ao exílio e a então novata Aquino à Presidência.

Arroyo chegou à Presidência na segunda onda de protestos do "Poder do Povo", que em 2001 derrubou o ex-ator de cinema Joseph Estrada. Ela agora é acusada de fraude eleitoral, o que atribui a um complô para derrubá-la.

Imelda Marcos, viúva do ditador, morto em 1989, compareceu à missa e rezou um rosário após saber da morte dele, pedindo "que todos os filipinos finalmente se unam em espírito", segundo uma assessora.

Na cerimônia que marcou sua aposentadoria, Sin disse que seu dever foi "colocar Cristo na política". "A política sem Cristo é o maior flagelo da nossa nação", afirmou.

Mas alguns criticam o legado de Sin. A rebelião de 2001 foi considerada por alguns um golpe de Estado sob o patrocínio da Igreja e da elite política, que estariam incomodadas com a plataforma popular que elegeu Estrada.

Analistas dizem que essas rebeliões deixaram as Filipinas com um sistema instável, no qual os políticos se apressam em usar a ameaça do "Poder do Povo" como arma contra qualquer presidente.

- Seu histórico, para mim, será sempre dúbio - disse Nelson Navarro, especialista em assuntos da Igreja.

- Ele foi correto ao levar a Igreja a tratar dos assuntos da atualidade. Mas ficou enamorado com o poder e se tornou seu mediador - disse. 

A aposentadoria de Sin, após 27 anos à frente da arquidiocese, marcou o final de um período de inédita atividade política da Igreja filipina, embora ela ainda continue sendo uma força importante e apóie a presidente Arroyo.

Ordenado em 1954, Sin se tornou cardeal aos 47 anos. Era, à época, o mais jovem dos "príncipes da Igreja". Em abril deste ano, já doente, faltou ao conclave que elegeu o papa Bento XVI .

Sin foi um intransigente adversário do controle de natalidade e, em agosto de 1994, mobilizou centenas de milhares de pessoas para uma passeata contra as campanhas do governo pelo uso de preservativos e anticoncepcionais para conter o crescimento populacional.

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