O Ministério do Trabalho decretou feriado nesta sexta-feira na Bolívia, dia da cerimônia de recondução ao poder do presidente reeleito Evo Morales. Ele terá mais cinco anos no cargo em continuidade à primeira gestão - que foi de quatro anos.
Para a próxima etapa de governo, Morales terá de enfrentar alguns desafios. Com 27,7% da população na faixa de pobreza, segundo dados oficiais, e 10,2% desempregados, de acordo com o Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Trabalho e da Agricultura, o presidente deve buscar meios de atender às expectativas dessas pessoas.
Outro problema na Bolívia é a ausência de infraestrutura de saneamento básico – como rede de esgotos, de água tratada e viária. Nem as principais cidades do país escapam dessas dificuldades, como La Paz, Santa Cruz de La Sierra e Cochabamba.
Nesta quinta-feira, o presidente reeleito foi submetido a um “ritual de limpeza”. É uma cerimônia típica dos povos indígenas pré-incas. Para eles, as energias dos ancestrais devem ser atraídas como garantia para Morales de sabedoria, êxito e prosperidade. O local escolhido foi um dos cartões postais da Bolívia - as ruínas de Tiwanaku a 75 Kms de La Paz.
Depois de promover mudanças na legislação eleitoral, Morales foi reeleito em dezembro com 64% dos votos. O próximo desafio dele é garantir maioria nas eleições regionais. Em 4 de abril, os bolivianos irão às urnas para a escolha de nove governadores, 234 deputados estaduais, 327 prefeitos e 1.700 conselheiros municipais.
Conflitos internos e tensões com vizinhos
Com poucos mais de 9 milhões de habitantes, sem saída para o mar e cercada pelos Andes, a Bolívia tem uma história marcada por conflitos com os países vizinhos e tensões internas. Até 1982, havia ditadura militar e várias restrições no país aos indígenas bolivianos, que são 62% da população. Os bolivianos, em geral, têm orgulho de sua história, das conquistas territoriais e mantêm firmes as tradições e costumes.
Analistas políticos afirmam que a vitória e a recondução do presidente Evo Morales, de 50 anos, representa a reação popular aos anos de opressão política e social. Até a década de 70, havia locais no país que proibiam a presença de indígenas e descendentes. A discriminação estimulou a população boliviana a impor restrições a tudo que representa o colonizador espanhol, segundo especialistas.
Em 2005, o então líder do do Movimento Esquerdista Boliviano Cocalero, Evo Morales, chegou ao poder ao obter maioria no segundo turno das eleições e manter a fidelidade à cultura de seus ancestrais. Quatro anos depois, foi reeleito com 64% dos votos, embora alvo de polêmicas e críticas.
Nas ruas de La Paz, os eleitores de Morales têm orgulho do que ele representa.
– Sou partidário de Morales porque olha para os mais pobres. Antes dele, isso não ocorria –, afirmou o motorista de táxi Celso López.
– Espero que ele promova mais oportunidades de emprego, que é o que nós estamos precisando –, disse o agricultor Florencio Suarez.
Para o professor de ensino rural David Arriaz, o governo Morales deve concentrar a segunda gestão no estímulo à produção rural e à melhoria nos sistemas de educação e saúde públicas.
– Temos de pensar que este é um país basicamente rural –, disse ele, lembrando que mais de 40% dos bolivianos vivem no campo.
Na política interna, Morales mantém controle quase absoluto sobre os grupos políticos, até núcleos empresariais e entidades civis. O presidente tem maioria nas câmaras de senadores – formada por 27 parlamentares – e de deputados – integrada por 130 políticos. Também conta com o apoio de sindicatos e organizações não-governamentais que representam grupos específicos, como mulheres indígenas, entre outros.
A estrutura social na Bolívia segue, em parte, a tradição dos indígenas, que é a divisão de tarefas por meio de comunidades de vizinhança. As comunidades são responsáveis por áreas específicas, exercendo a liderança e o comando, e a partir daí são realizadas ações em comum acordo com o Estado. Morales também tem forte influência nesses segmentos.