O presidente da Bolívia, Evo Morales, passou a madrugada de segunda para terça-feira em vigília ao lado de milhares de bolivianos, na rua em frente ao Congresso do país, pressionando pela aprovação da lei que convoca um referendo capaz de oficializar a nova Constituição boliviana.
– Nós estamos aguentando isso com muita paciência e continuaremos a aguentar em nome do povo boliviano, ainda que queiram nos provocar – disse o presidente, discursando ao amanhecer para os entusiasmados companheiros de vigília, muitos dos quais recém-chegados de uma caminhada de oito dias.
Morales, que fez sua carreira política com décadas de marchas e bloqueios de estrada, parecia resoluto ao anunciar que a espera continuaria. O breve discurso ocorreu às 6h45 da manhã (8h45 em Brasília), ao completar-se quase 12 horas de debate no Congresso sobre o referendo que colocaria em pauta uma nova Constituição de inspiração socialista.
O acordo político anunciado na tarde de segunda-feira, que garantia os dois terços necessários de votos para convocar o pleito, determinou que os bolivianos irão às urnas no dia 25 de janeiro para decidir sobre a nova Constituição e que, em dezembro, realizarão eleições gerais antecipadas.
Porém, o processo legislativo iniciado à noite para colocar em prática o acordo viu-se atrapalhado por longos discursos de deputados e senadores da oposição, alguns deles contrários ao pacto.
– Tenho certeza de que, nas próximas horas, vamos aprovar. Depois eles (os membros da oposição) não terão mais nenhum argumento. Somos milhares. Não custa nada tomar o Parlamento. E estão buscando isso para nos jogar a culpa. Peço-lhes um pouco mais de paciência. Nós sairemos daqui com a lei que prometo promulgar imediatamente – disse Morales.
O Congresso, cuja Câmara dos Deputados a base governista domina com folga, mas em cujo Senado os adversários do presidente contam com uma pequena maioria, aprovou nas primeiras horas do debate apenas uma lei que o autoriza a realizar ajustes na nova Constituição, lei essa que Morales promulgou às 3h da madrugada, na rua mesmo.
Os legisladores iniciaram, pouco depois, o trâmite sobre a lei do referendo, que inclui todo o novo texto constitucional aprovado por uma Assembléia Constituinte em dezembro passado e ao qual se incorporaram mudanças negociadas nos últimos mês com a oposição.
O texto deve dar poderes maiores à população de origem indígena, majoritária na Bolívia, facilitando seu acesso ao Legislativo e Judiciário, deve dar mais autonomia aos Departamentos e deve consolidar uma economia controlada pelo Estado (com matizes socialistas e comunitários).
– Vamos debater o quanto for necessário para responder às demandas de nossas regiões – afirmou a repórteres o deputado oposicionista Wilman Cardozo, ao justificar na madrugada porque mais de 50 parlamentares haviam pedido para discursar antes da votação sobre o referendo.
Do lado de fora do Congresso, na praça central de La Paz, Morales pediu a solidariedade dos moradores da cidade a fim de conseguir uma quantidade suficiente de comida para os participantes da vigília.
– Às vezes, nós ficamos sem comer. E eu como vocês fiquei sem comer o dia de ontem e depois fiquei sem dormir, nesta vigília. Mas venceremos – acrescentou o presidente, que esteve na segunda-feira à frente do último trecho da marcha realizada por dezenas de milhares de pessoas e que exigia a realização do referendo constitucional.
A passeata, ao que parece a maior da história boliviana, representou o episódio mais recente das mobilizações sociais feitas em nome da reforma constitucional com a qual Morales pretende "refundar" a Bolívia.
Morales faz vigília com milhares de bolivianos
Terça, 21 de Outubro de 2008 às 10:37, por: CdB