Cansadas da falta de água seletiva na Região Metropolitana de São Paulo, centenas de pessoas fizeram uma marcha até a sede administrativa da Sabesp na Ponte Pequena, região central da capital paulista. "Não podemos aceitar isso. A água não chega em casa, mas a conta sempre, e cada vez mais cara", afirmou a diarista Edilaine Matos, moradora da Terceira Divisão, Zona Leste.
Na casa de Edilaine falta água o dia todo. "Só tem água entre 20h e 6h da manhã do dia seguinte", relatou. O estoque está sempre completo pra evitar ficar totalmente na seca. "Tenho dez garrafas de dois litros, mais algumas pequenas para guardar água filtrada. E também guardo em baldes a que sobra da lavagem de roupas para usar no banheiro e na limpeza", contou.
O relato da diarista e de muitos dos presentes à manifestação de hoje contradizem a constante afirmação do governador Geraldo Alckmin (PSDB) de que não falta água na Região Metropolitana.
Até no trabalho a diarista é afetada pela falta de água. "As pessoas guardam água pra gente poder fazer a faxina. Se não fizerem isso não tem como a gente trabalhar porque falta água o dia todo", relatou Edilaine, que trabalha em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.
Os manifestantes querem que o governo Alckmin seja mais transparente quanto aos locais em que vai faltar água e quanto à severidade da crise. "A Sabesp não admite que faz rodízio, mas faz. Nós sabíamos que a situação era ruim há, pelo menos, cinco anos. Mas agora a empresa está demitindo e precarizando a condição dos trabalhadores", disse o ex-funcionário da engenharia da Sabesp Marzeni Pereira.
Ele integra o coletivo Água Sim, Lucro Não, um dos organizadores do ato. Segundo Pereira, a empresa demitiu 600 trabalhadores desde a admissão da crise pelo governador, em janeiro do ano passado. Dispensas que os manifestantes querem que sejam revertidas.
– A Sabesp hoje age como uma empresa privada. Está preocupada com seu lucro, por isso aumentou as tarifas, impôs multas e demitiu trabalhadores. Ao mesmo tempo, conta só com a chuva para resolver o problema, porque suas ações agora são inócuas – afirmou Pereira.
Desde novembro do ano passado, a tarifa de água da Sabesp na Região Metropolitana de São Paulo aumentou 21%. E a empresa ainda pleiteia repassar à população mais uma taxa referente a 7% do lucro que hoje deve ser repassado para o fundo de saneamento da prefeitura da capital.
Na quarta-feira, Alckmin entregou a obra de transposição de 4 mil litros por segundo de água da represa Billings para o Sistema Alto Tietê, que está em nível crítico. Para o ex-funcionário, essa é a única obra das anunciadas que pode ter algum efeito.
– Todas as outras, como a transposição do Rio Paraíba do Sul para o Sistema Cantareira e do Rio Guaió para o Alto Tietê estão ligando o seco ao vazio. Essas obras deviam ter sido feitas há muito tempo – afirmou Pereira.
Os manifestantes levaram um documento com as reivindicações à Sabesp, em que também exigem o fim das terceirizações na companhia e a contratação dos concursados. Hoje, mais da metade dos trabalhadores da empresa são contratados de empresas prestadoras de serviço.
Querem que a Sabesp revogue o aumento da tarifa básica e acabe com os contratos de demanda firme, em que grandes empresas ganham descontos para utilizar grandes quantidades de água e que seja mais transparente quanto à real situação do abastecimento na Região Metropolitana de São Paulo.