Moradores de Srebrenica sepultam mortos e pedem punição a Mladic
Por Maja Zuvela
SREBRENICA, Bósnia (Reuters) - Milhares de bósnios muçulmanos sepultaram na segunda-feira centenas de vítimas recém-identificadas do massacre de Srebrenica, ocorrido há exatos 16 anos, e manifestaram a esperança de que o ex-comandante sérvio Ratko Mladic seja finalmente punido pelo envolvimento naquele crime uma vez que já está em julgamento.
Sobreviventes e parentes dos mortos choravam, sob o sol forte, durante o sepultamento, no mesmo local onde os corpos desses 613 homens e meninos muçulmanos foram baleados e enterrados por escavadeiras em uma vala comum, uma atrocidade cometida pelas forças servo-bósnias que tentavam impedir a independência do país.
Esses corpos só recentemente foram identificados. Mladic, que passou anos foragido, foi preso em maio e agora está sendo julgado pelo crime de genocídio em um tribunal da ONU em Haia (Holanda). Ele rejeita a acusação, relativa ao massacre de Srebrenica e também aos 43 meses de cerco a Sarajevo.
"Tê-lo atrás das grades traz algum conforto, mas o verdadeiro alívio só virá quando eu encontrar o corpo do meu filho de 18 anos que foi mandado para a morte por Mladic", disse Munira Subasic, integrante do grupo Mães de Srebrenica.
Durante a guerra da Bósnia, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou Srebrenica como um refúgio para a população muçulmana. Mas em 11 de julho de 1995 as forças sérvias invadiram a cidade e passaram uma semana assassinando a população masculina nos bosques vizinhos, diante da falta de reação de soldados holandeses portando armas leves.
Subasic contou que implorou a Mladic para que seu filho fosse poupado, no momento em que soldados separavam os homens das mulheres, crianças e idosos. "Ele prometeu que sim, mas não cumpriu. Eu desejo que ele tenha uma longa vida na prisão para pagar por isso", afirmou ela.
A ativista também manifestou esperança de progresso na ação judicial movida por sobreviventes contra o Estado holandês, e que está atualmente na Suprema Corte daquele país. "Esse será mais um passo adiante na nossa luta pela verdade", disse.
Um tribunal de recursos considerou na semana passada que o Estado holandês era responsável pelas mortes em Srebrenica de três homens cujas famílias ingressaram com a ação.
Se a Suprema Corte confirmar a decisão, isso poderá levar ao pagamento de indenizações e a outras ações semelhantes por parte de outros sobreviventes.
Hamida Nuhic, cujos filhos de 11 e 15 anos foram as mais jovens vítimas a serem sepultadas na segunda-feira, disse que o tribunal de Haia está demorando demais para chegar ao veredicto.
"A corte deveria parar com essa pantomima e ... acelerar os julgamentos para que vejamos a justiça enquanto ainda vivemos", disse Nuhic, às lágrimas, enquanto orações islâmicas ecoavam pelo vale verdejante.
Centenas de homens então passaram de mão em mão os caixões envoltos em tecidos verdes até as sepulturas. Esses caixões continham apenas ossos, minuciosamente identificados em exames de DNA.
A Comissão Internacional para Pessoas Desaparecidas já identificou 6.598 vítimas do massacre de Srebrenica, e 4.524 delas foram sepultadas no memorial de Potocari, perto de Srebrenica, depois de terem seus restos exumados das valas comuns.
Muitos servo-bósnios ainda hoje negam que o massacre tenha ocorrido. Eles dizem que as mortes foram parte do conflito, e consideram Mladic como um herói, recusando-se a observar o dia de luto nacional que vigora em toda a Bósnia.
Na Sérvia, ultranacionalistas lançaram uma campanha para marcar o que chamam de "O Dia da Libertação de Srebrenica".
Reuters