Uma operação de guerra com data para terminar. Assim viveram a construção de Brasília dezenas de milhares de operários que participaram do processo de levantar uma cidade em um local isolado e distante das principais áreas povoadas do Brasil para convertê-la na capital do país e motor do desenvolvimento de uma região semi-deserta.
A mais nova capital latino-americana foi construída em apenas 42 meses no centro-oeste brasileiro para ser inaugurada há 45 anos, no dia 21 de abril de 1960, na mesma data que lembra Tiradentes, herói da luta pela independência do país.
Hoje, como há 45 anos, o pó de terra vermelha e a seca dos meses de inverno do Hemisfério Sul distinguem a região na qual está Brasília com sua moderna arquitetura, que rapidamente se tornou símbolo do país.
A cidade - que tem a maior renda per capita do país, uma qualidade de vida invejável para outras capitais da América Latina, amplos espaços verdes e uma população ainda escassa - começou logo a padecer dos mesmos problemas urbanos que o resto do Brasil, a quarta nação com a pior distribuição de renda do mundo.
As chamadas cidades satélites, cidades-dormitório que rodeiam Brasília e o chamado "Entorno", um cinturão de municípios localizados na divisa do Distrito Federal com o Estado vizinho de Goiás, registram altos índices de homicídios e outras formas de violência, desemprego e numerosos problemas sócio-econômicos.
- Brasília, com sua grandeza, sua monumentalidade, também reflete a realidade terceiro-mundista nacional, a 'periferização'. As pessoas não suportam os custos do centro, mais valorizado. Por isso, Brasília é a acumulação, o entorno é a pauperização - explica o arquiteto Cláudio Queiroz, professor da Universidade Nacional de Brasília.
Essa característica, porém, não é atribuível à cidade em si ou a sua concepção, senão às "próprias características de um país como o Brasil, de contradições sociais", acrescentou.
Entre as contradições se destacam, imponentes, as chamadas super-quadras, conjuntos residenciais rodeados de espaços verdes que imprimem a Brasília a cara de uma cidade-jardim, silenciosa e serena e, em um raio de 50 km, cidades pobres como Gama, Recanto das Emas ou Samambaia, com escassas conexões de transporte até esse pólo, onde trabalha a maioria de seus habitantes.
- Quando se construiu Brasília, as pessoas que chegaram para trabalhar nela econtraram melhores condições que em seus lugares e foram ficando. Depois não puderam suportar o custo de vida no centro e começaram a povoar o entorno - de maneira de desordenada, acrescentou Queiroz.
Os pioneiros que chegaram para colonizar o "cerrado" brasileiro, onde está Brasília, ainda lembram com nostalgia a aventura de "inventar" uma cidade em um local onde só havia pastagens.
- Cheguei ao que hoje é Brasília em 1954 para participar da escolha do lugar onde seria a nova capital. Isso era um matagal - disse à Reuters o médico Ernesto Silva, um verdadeiro arquivo ambulante da cidade e membro da primeira direção da empresa estatal encarregada de construí-la.
A moderna capital, nascida da concepção do urbanista Lúcio Costa e da originalidade dos palácios e outros edifícios de formas leves do arquiteto Oscar Niemeyer, foi construída na gestão do desenvolvimentista presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), que pensava que se Brasília não fosse concluída em um só mandato ficaria pela metade e a mudança da capital do Rio de Janeiro não se concretizaria.
Atualmente, no chamado Plano Piloto, como se conhece a Brasília projetada por Costa, vivem cerca de 300 mil pessoas. No Distrito Federal, integrado por Brasília e suas cidades satélites, a população chega a quase 2 milhões.