Rio de Janeiro, 13 de Maio de 2026

Miséria e fome na Argentina chocam os próprios integrantes do governo

O médico pneumologista Enrique Zamudio assumiu há 40 dias o posto de secretário da Saúde da província argentina de Tucumán. Em seu primeiro cargo público, ele confessa que também está chocado com o aumento das mortes por inanição numa das províncias mais ricas em produtos naturais na Argentina - país conhecido como o "rebanho do mundo". Em entrevista à BBC Brasil, o secretário desabafa e confessa seu grau de desconhecimento em relação ao país onde vive, no momento em que não entende porque desapareceram as hortas e a razão de a Argentina ser um dos maiores produtores de alimentos do continente e ver a situação de miséria de seus habitantes. (Leia Mais)

Segunda, 25 de Novembro de 2002 às 21:58, por: CdB

O médico pneumologista Enrique Zamudio assumiu há 40 dias o posto de secretário da Saúde da província argentina de Tucumán. Em seu primeiro cargo público, ele confessa que também está chocado com o aumento das mortes por inanição numa das províncias mais ricas em produtos naturais na Argentina - país conhecido como o "rebanho do mundo". "A desnutrição é só a ponta do iceberg da pobreza", diz. "A desnutrição é conseqüência da pobreza e do desemprego", diz o secretário, que defende uma melhor distribuição da riqueza contra os males da fome. A região registrou 11 mortes de crianças por desnutrição em dez dias, 50% da população está desempregada ou subempregada, e 20% vive na miséria. "Se nada for feito já, outras crianças estarão condenadas à morte", alertou Maria Cristina Nemiña, da ONG Cefa. Neste ano, ocorreram 359 mortes de recém-nascidos em Tucumán, que é grande produtora de cana-de-açúcar e limão. "Aqui tudo que se planta dá. Mas o desemprego e a falta de comida estão deixando as pessoas apáticas, resultando na violência familiar e no abandono das crianças", resumiu a psicóloga Fabiana Pregot Buriek, também da Cefa. Contando mortos O próprio governo federal admite a gravidade do problema e diz que os problemas na província precisam ser combatidos imediatamente. "Se não trabalharmos com seriedade, em vez de contar votos os políticos vão continuar contando mortos aqui em Tucumán", diz a ministra de Desenvolvimento Social do governo central, Nélida Doga. Para tentar reverter este quadro de abandono, o governo federal enviará uma missão de emergência, que desembarcará na segunda-feira, na capital da província, San Miguel de Tucumán. A operação, batizada de "resgate", contará com soldados do Exército, professores universitários e organizações não-governamentais. A idéia da primeira-dama Hilda Chiche Duhalde, que lidera a operação, é bater de casa em casa - muitas de plástico, que desabam mesmo sem a ajuda das fortes tormentas desta época do ano - para saber como se pode amenizar a miséria tucumana. A intervenção social do governo federal pretende salvar as centenas de crianças que estão à beira da morte por falta de comida. Após a radiografia oficial, as vítimas dos casos mais graves serão levadas para hospitais de Buenos Aires, já que o único hospital pediátrico da província, o Hospital del Niño Jesus, está sobrecarregado. "Mas, se não houver uma coordenação permanente entre os governos e as próprias ONGs, qualquer medida será apenas um paliativo", afirma Yolanda de Robles, criadora da Cefa - Centro de Êxitos Fraternidade e Amor), a maior ONG da província, com 500 crianças e adultos permanentemente atendidos. "É comum que o dinheiro da ajuda social não chegue aos que dele necessitam. O ideal seria que as organizações não-governamentais, e não mais o governo local, cuidassem da administração dos recursos sociais", sugere. Distribuição de comida Não é de agora que os governos de Tucumán - e políticos em campanha - costumam distribuir leite e alimentos básicos. O problema é que, com a crise, a distribuição foi reduzida e muitos, como observa a médica Graciela Lavado, não têm como se defender. Apesar da terra fértil marcada pelo cultivo de cana, observam ela e os integrantes da ONG Cefa, os tucumanos não têm o hábito de cultivar seus alimentos. "E muitos nem têm dinheiro para comprar sequer a semente. Eles estão esquecidos, marginalizados da sociedadade", indigna-se Maria Cristina Nemiña. Tucumán tem 1,6 milhão de habitantes, a maior densidade demográfica do país, 200 mil indigentes sem nenhum tipo de ajuda social e outros 263.670 que vivem exclusivamente de ajuda das autoridades. Nos últimos dias, a região passou a ser o símbolo dos resultados da má administração do dinheiro público e das disputas políticas dos últimos anos entre o governo central e o governo provincial. Na província, historicamente, como conta o analista Joaquín Morales Solá, a guerra

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