Maria de Fátima Cardoso Jesus, idade desconhecida, saiu de casa cedo -cinco, cinco e meia da manhã - para ganhar, dependendo da produção na roça de café, o máximo de R$ 6. O marido, Sebastião Chagas de Jesus, que calcula ter 60 anos, tomou o rumo da mesma vereda, no sítio São João da Mata, município de Malacacheta, no vale do Mucuri.
Embora a velha tradição machista lhe garanta alguns dois, três reais a mais, nesse dia ele ficou na mesma faixa da mulher. Ganhou ‘apenas para o sal, como diz.
Os meninos, João, Adélia, Leonardo e Dario, ficaram dormindo sozinhos, ali na beira da estrada que dá na sede do município. Acordaram sem nada no fogo. São dez filhos ao todo. Os seis mais crescidos já se viram, entre roças e a servidão doméstica em casas de pessoas mais aquinhoadas de sítios e cidades vizinhas.
- Uma das meninas vive em casa com televisão, geladeira, povo que luxa - diz a mãe.
A família Chagas de Jesus em breve terá registros de nascimentos. Quase todos com idades arbitradas pela promotoria pública do município, que os alertou para a clandestinidade. João, o mais novo, deve ter uns dois anos. O mais velho, Leonardo, não deve passar dos seis.
Como acordou sem comida - o fogão era apenas um borralho de cinzas - o caçula resolveu ciscar, como um bicho do mato, nos arredores da casa. Tentava tirar alguma sustança de um bagaço velho de cana-de-açúcar. Pela aparência, o bagaço já havia sido todo sugado por porcos.
Ele ciscava nu, sujo de muito, entre os garranchos do balseiro. ‘Um bichinho, meu Deus’ espantou-se Flávia Hilário Cassiano, 28 anos, assistente social de Malacacheta, que já conhecia a família.
A expressão da moça, paulista de São José dos Campos, situada em vale mais próspero, repetia, involuntariamente, velho poema de Manuel Bandeira. O poeta se espantou com o primeiro homem que viu a lamber sobras de alimentos de lata de lixo urbano, coisa de mais de 50 anos atrás.
Avexada, Flávia apanhou uns gravetos com a ajuda de João, Adélia, Leonardo e Dario, cortou uma abóbora e botou no fogo. Misturou na mesma água um punhado de arroz. Fez um ‘rebengo’, como muitos sertanejos daquelas bandas chamam a comida feita das sobras das sobras. Os meninos voaram em cima da panela e se lambuzaram. Era perto do meio-dia. Não comiam há 23 horas.
- Ah, minha filha, Deus que te guarde e ilumine para todo o sempre, amém. Era a mãe das crianças, Maria de Fátima, em agradecimento à ação da assistente social. ‘Filho de pobre é assim mesmo, come aqui, come acolá’, discursa, no meio da roça de café.
A família Chagas de Jesus - abaixo de tudo que se possa classificar como linha da miséria - nunca conseguiu fazer parte de nenhum programa social de governo. Por falta de documentos, por achar que não tem mesmo direito a nada. ‘Isso não é para o nosso bico não, meu senhor’, acentua a mãe.
Ladainha
Na última vez que sentou para escutar o rádio, no começo do ano, o pai Sebastião, cuja origem é o município de Ladainha, ali no mesmo vale da miséria, conta que ouviu falar, sem entender direito, em ‘um tal de Fome Zero’. No seu jeito guardado, faz cara de quem não aposta mais em qualquer inclusão.
- É coisa do governo, né? Se vier, é bom - e volta para a roça.
Malacacheta é um dos 38 municípios dos vales do Mucuri e do Jequitinhonha escolhidos para o início das atividades do programa comandado pela política de segurança alimentar do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O Fome Zero começou, em junho, no sertão mineiro.
O convênio entre o governo Federal, governo do Estado e prefeituras foi assinado em Belo Horizonte. Os comitês gestores do programa, que contam com representantes do poder municipal, sindicalistas, Igreja Católica e sociedade civil, estão prontos para a operação.
- Não vejo a hora, pois uma ‘arremedeio’ desses já tira tanta dor de cabeça.