Com a manchete, em garrafais letras negras, "Desculpem-nos. Fomos enganados", o "Daily Mirror" se retratou hoje, sábado, pela publicação de fotos falsas de maus-tratos contra presos iraquianos, embora mantenha a afirmação de que a tortura existiu.
Em gesto bastante incomum, o tablóide faz um "mea culpa" e inclui ainda um artigo editorial no qual pede perdão a seus leitores e às tropas britânicas pelas imagens, desde o início criticadas pelo ministério da Defesa e pelo regimento em questão.
A publicação das fotos, em 1º de maio, que, entre outros maus-tratos, mostravam um soldado urinando sobre um detento iraquiano, custou o emprego do carismático diretor do jornal, Piers Morgan. Morgan foi despedido nesta sexta-feira pelo Conselho de Administração da empresa.
Em comunicado, a proprietária do jornal, Trinity Mirror, afirmou que existem indícios suficientes que sugerem a falsidade das fotos. Por isso, seria inadequado que Morgan continuasse ocupando a direção do "Daily Mirror".
O tablóide, com mais de cem anos de história e muitas exclusivas em suas páginas - boa parte sobre a família real britânica -, afirma hoje que foi vítima de um engano quanto às fotos, mas continua sustentando que as torturas contra os presos são uma realidade e pede que os responsáveis sejam apontados.
Esta semana, o secretário de Estado das Forças Armadas, Adam Ingram, e o brigadeiro Geoff Sheldon, do regimento de Lancashire, cujos membros teoricamente apareciam nas fotos, afirmaram que estas eram falsas e que não foram tiradas no Iraque.
Ingram e Sheldon chegaram a essa conclusão porque certos elementos do uniforme e do armamento mostrados nas imagens não coincidem com os que são usados no Iraque.
"As provas contra (a autenticidade das imagens) não seriam suficientes ante um tribunal", assinala o "Mirror". Apesar disso, o jornal admitiu ter cometido um erro ao publicá-las.
"Nós o fizemos de boa fé. Acreditamos que (as fotos) eram o que nos asseguraram que eram", acrescenta.
Seis soldados do regimento da Rainha de Lancashire, cujos integrantes teoricamente apareciam nas fotos publicadas, denunciaram ao jornal casos de maus-tratos de prisioneiros infligidos por seus colegas no Iraque.
O soldado identificado como "C" foi entrevistado na sexta-feira pela rede de televisão "ITV" e reiterou que alguns de seus companheiros batiam nos iraquianos "por diversão".
O "Mirror" considera que suas acusações de torturas "foram confirmadas pelos relatórios da Anistia Internacional (AI) e da Cruz Vermelha".
Em seu editorial, o tablóide lamenta que a polêmica sobre as fotos oculte a grande questão, a existência dos maus-tratos.
Para o jornal, admitir que "as fotos não eram autênticas não deve permitir que o ministério da Defesa evite abordar a verdadeira questão".
Segundo o tablóide, o governo não deve se comportar como no "caso Kelly", quando "dirigiu toda sua pólvora contra a BBC" e não pediu desculpas por sua atuação.
David Kelly, especialista em armas do ministério da Defesa, suicidou-se depois de o governo tê-lo identificado como fonte de uma notícia da BBC que acusou o Executivo de manipular informação sobre o Iraque para justificar a guerra.
Após o relatório do juiz Brian Hutton, que isentou o governo e culpou a rede pública, dois diretores da BBC, Gavyn Davies e Greg Dyke, apresentaram suas demissões.
O "Mirror" acredita que o governo tenha enganado os britânicos ao colocar o Reino Unido em uma guerra com o pretexto das armas de destruição em massa, que ainda não foram encontradas.
"Agora que o 'Daily Mirror' se desculpou, quanto tempo levará para que outros reconheçam seus erros?", questiona o jornal.