Rio de Janeiro, 08 de Outubro de 2026

Ministro prevê 'gestão audaciosa' de seu pupilo em Harvard

O democrata Barack Obama, que será empossado nesta terça-feira, na Presidência dos Estados Unidos, necessitará de uma gestão audaciosa ante o desafio de oferecer alternativas de superação para uma das mais graves crises econômicas enfrentadas pelo país e também de promover um salto de qualidade nas relações multilaterais da superpotência. (Leia Mais)

Segunda, 19 de Janeiro de 2009 às 09:15, por: CdB

O democrata Barack Obama, que será empossado nesta terça-feira, na Presidência dos Estados Unidos, necessitará de uma gestão audaciosa ante o desafio de oferecer alternativas de superação para uma das mais graves crises econômicas enfrentadas pelo país e também de promover um salto de qualidade nas relações multilaterais da superpotência. A avaliação é do ministro de Assuntos Estratégicos do governo brasileiro, Roberto Mangabeira Unger, conhecedor da cultura norte-americana, da personalidade de Obama – o democrata foi aluno de Unger na Universidade de Harvard – e de boa parte da equipe de auxiliares do novo presidente.

Unger analisa a dimensão da crise, a composição da equipe e o projeto de governo de Obama. Segundo o ministro, a julgar pelas idéias dos principais colaboradores anunciados, o governo de Obama tenderia a uma trajetória “muito convencional”. Entretanto, o professor acredita que o ex-aluno será impelido a intervir e a garantir arrojo condizente com as expectativas despertadas na sociedade americana e mundial.

– A crise é uma grande aliada da imaginação. As pessoas que costumam aflorar ao primeiro nível do mundo raramente são pessoas muito auto-questionadoras. Geralmente acham que já sabem, mas não sabem, como a crise demonstrou. O presidente eleito teria que forçar a barra. Ele tem dito publicamente: 'não se preocupem se muitos de meus colaboradores não parecem visionários, que eu providenciarei a visão' – assinalou Unger.

Em visita aos EUA na última semana, Unger apurou seis diretrizes já definidas no programa de governo de Obama: regular os mercados financeiros; adotar políticas fiscais e monetárias expansionistas; usar o poder do governo federal para aumentar a cobertura dos seguros privados de saúde; fomentar o uso de energias renováveis e tomar uma posição mais avançada em relação às mudanças climáticas; respeitar mais o multilateralismo nas relações institucionais e o “poder suave” em relação ao poder duro da intervenção militar; retirar tropas do Iraque e colocá-las no Afeganistão.

– É um projeto muito circunscrito, dada a amplitude das frustrações e aspirações suscitadas no país, neste momento de inflexão. O país está fervilhando em baixo e vai querer mais. O presidente, que é um homem sereno e cauteloso, mas também apreciador da imaginação, vai oscilar entre o horizonte programático restrito dos colaboradores e a impaciência do país por um programa mais audacioso – ressaltou Unger.

O ministro define a atual crise econômica vivida nos EUA como a mais forte sofrida desde a grande depressão do século 20. A perspectiva de adoção de políticas monetárias e fiscais expansionistas é vista com ressalvas por ele. 

– Essas políticas expansionistas surtirão poucos efeitos ou efeitos perversos, se não forem adotadas num contexto de superação dos desequilíbrios na economia do mundo, entre países superavitários em comércio e poupança, a começar pela China, e países deficitários em comércio e poupança, a começar pelos EUA. O primeiro efeito das políticas expansionistas é agravar o mal que produziu a crise: mais fome do consumo e de importação – afirmou.

Na visão de Unger, a política de regulação dos mercados a ser imprimida pelo governo de Obama deve ser implementada com um dos elementos de um projeto maior, que seria o da reconstrução das relações entre as finanças e a produção, com uma reorganização das instituições que mobilizam a poupança de longo prazo para investimento na produção.

– Do jeito pelo qual se organizam hoje as economias de mercado, a produção em larga medida se autofinancia por meio dos lucros retidos das empresas. Todo aquele dinheiro que está nos bancos seria teoricamente para financiar a produção, mas, na realidade, a maior parte não é. Isso teria que mudar de forma que, ao recuperar o nível de atividade econômica, também se ampliasse as oportunidades – argumentou o ministro.

Unger não acredita em reação negativa da sociedade americana a uma postura intervencionista que, em certa medida, deverá marcar o governo de Obama. O ministro imagina uma coordenação estratégica entre Estado e empresas, nos moldes do que ocorreu com sucesso na economia americana durante a Segunda Guerra Mundial.

– O ponto forte da cultura pública dos Estados Unidos não é a devoção à livre inciativa, mas a devoção à flexibilidade institucional. Os (norte-)americanos têm seus preconceitos doutrinários, mas, quando precisam, mudam de roupa com grande desembaraço. O velho conflito ideológico entre estatismo e privatismo, que dominou o mundo por dois séculos, está morrendo. Não se torna uma economia de mercado mais inclusiva sem reconstruir as instituições que a definem. O problema está em como reconstruir o mercado – disse Unger.

Relação intensa

Mangabeira Unger, vê a possibilidade de uma relação mais intensa entre Brasil e Estados Unidos a partir da posse de Barack Obama na Presidência. Unger avalia que os EUA passarão por algo além da troca de governo, que se caracterizará por uma “mudança de sensibilidade e orientação”, a ser aproveitada pelo Brasil para a redução das divergências bilaterais.

– Nós teríamos uma oportunidade extraordinária de abrir um novo tipo de relação com os EUA. Temos contenciosos preexistentes, como as divergências em relação ao protecionismo agrícola, exemplificado pela rivalidade entre o etanol brasileiro e o americano. Mas tudo isso é café pequeno, comparado com as oportunidades que temos pela frente. Não imagino que essas rivalidades vão se esvair instantaneamente, mas proponho que as coloquemos de lado e abramos novas frentes de colaboração – afirmou Unger.

Os esforços conjuntos de Brasil e Estados Unidos passam, segundo o ministro, pela construção de respostas à crise mundial e por “experimentos institucionais” que resultem na ampliação das oportunidades de aprendizado, trabalho e produção nos países. As áreas consideradas mais propícias por Unger são o desenvolvimento dos agrocombustíveis, a educação e o fomento às pequenas empresas.

Ele destaca o potencial privilegiado dos dois países em fontes de energia renováveis como elemento capaz de suscitar ações a quatro mãos para a organização de um mercado mundial de agrocombustíveis, com intercâmbio científico e tecnológico.

– A curto prazo, pela nossa condição tropical, seríamos mais beneficiados, mas a longo prazo o mundo todo se beneficiará, porque a tendência do avanço científico é atenuar a relevância da geografia – disse Unger.

No campo educacional, Unger argumentou que os dois países têm o desafio de garantir a gestão local das escolas por estados e municípios com padrões nacionais de investimento e qualidade.

– Estou trabalhando com Fernando Haddad [ministro da Educação brasileiro] em uma proposta para associar os três níveis da federação em órgãos conjuntos, para consertar e recuperar sistemas locais de educação defeituosos, que tenham caído abaixo dos patamares mínimos aceitáveis. Se pudermos fazer isso com os EUA, será fabuloso – afirmou.

Em relação às pequenas e médias empresas, o ministro disse que os países deveriam focar a modernização tecnológica para que haja “um dínamo de crescimento includente”.

O ministro defende mudanças na relação já existente entre as estruturas militares dos países, hoje pautada pela importação de produtos norte-americanos e pelo desejo dos EUA de engajar o Brasil em operações “quase policiais” contra o narcotráfico na América Latina e no Caribe.

– Temos que substituir essa agenda por outra, de colaboração em pesquisa e produção na vanguarda tecnológica de defesa, além da troca de idéias e pessoas entre nós. Não estamos interessados em ajudar outro país a policiar o mundo, mas sim em discutir com os EUA os instrumentos de uma cultura militar vanguardista pautada pelo ideal de flexibilidade – ressaltou Unger.

Por fim, o ministro aponta a possibilidade de o Brasil exercer papel decisivo em uma eventual reconciliação entre Estados Unidos e Cuba. “Aí podemos desempenhar um papel. É difícil para os EUA avançar para uma reconciliação sem que haja em Cuba gestos significativos em matéria de direitos humanos e liberdades públicas. Temos um interesse estratégico nessa reconciliação, porque os antagonismos são uma ferida aberta que serve como obstáculo à criação de um experimentalismo democrático amplo que desejamos no hemisfério ocidental”.

Audácia

O ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, afirmou que o Brasil não será necessariamente prejudicado pelo aumento das exportações norte-americanas, que deverá ser estimulado pelo novo governo.

– Os Estados Unidos vão ter que fazer uma grande ajuste e não continuar a viver da poupança dos outros. Isso não é um problema para o Brasil , porque nossas exportações são extremamente diversificadas. Em geral, a liquidez mundial secará e nós teremos que andar com as nossas próprias pernas. Mas isso não é ruim, é bom, é a instigação para a reconstrução do Brasil. As soluções fáceis desaparecerão – argumentou Unger.

O ministro defende que o Brasil dedique esforços à qualificação de suas pequenas e médias empresas, inclusive com possíveis parcerias com os EUA voltadas para a modernização tecnológica do setor.

– Não podemos pensar pelo viés de um neomercantilismo em que o objetivo é simplesmente exportar mais. Não é por aí. Temos que evitar imaginar que o país será mais próspero se virar uma combinação de grande fazenda, grande mina e uma montadora média. Isso não presta para o Brasil e é a aposta em trabalho barato. Vejo este momento histórico como um grande momento para o Brasil. Minha angústia é o Brasil ficar aquém por falta de imaginação e audácia. Tratemos de evitar esse desperdício – afirmou Unger.

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