O ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, e o governador de Roraima, Flamarion Portela, devem se reunir até esta sexta-feira para tentar encontrar uma solução para o impasse em torno da demarcação da reserva indígena "Raposa Serra do Sol".
Desde terça-feira, produtores rurais e índios mantêm três padres reféns na aldeia Surumu. A princípio, havia a informação de que 15 adolescentes que estavam na missão ainda estariam em poder dos manifestantes, mas o Ministério da Justiça não confirma.
De acordo com o Cimi -entidade ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)-, cerca de 200 pessoas participaram do protesto, sendo a maior parte índios macuxi. Os manifestantes teriam depredado uma escola e a sede da missão católica.
O protesto, no entanto, seria organizado por fazendeiros, principalmente produtores de arroz, contrários à criação de uma reserva com área contínua - reivindicação básica dos índios, para quem a descontinuidade impediria a manutenção de seu território.
Para o Cimi e a Arquidiocese de Roraima, os índios envolvidos no protesto foram cooptados pelos fazendeiros, e também receberiam dinheiro de políticos locais.
- Estamos em um mundo de corrupção em Roraima - afirmou o padre Edson Damian, da diocese de Roraima.
A versão tem respaldo no Ministério da Justiça, onde, extraoficialmente, fala-se em uma "mobilização artificial'' dos índios.
Parte da oposição de alguns índios à demarcação da reserva deve-se a questões de peso religioso. Por serem evangélicos, opõem-se à presença da Igreja Católica, defensora da homologação de áreas contínuas da reserva Raposa Serra do Sol. A missão Consolata, da qual fazem parte os padres presos, está no local desde 1948, segundo Damian.
A polêmica em torno da reserva é agravada pelas próprias dimensões da área, de 1,75 milhão de hectares, ou 7,7 por cento do Estado. A região da reserva é habitada por quase 15 mil índios, distribuídos em 148 aldeias. A área abrange ainda fazendas e três cidades.
Em 1998, a região foi declarada posse permanente dos índios macuxi, uapixana, ingaricó e taurepangue. Porém, o governo do Estado entrou com ação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para reverter o processo. Parte da propositura foi derrubada neste ano.
Bloqueio prejudica o estado
Segundo o jornal "Brasil Norte", o abastecimento de alimentos já está prejudicado já que os produtores rurais bloquearam as estradas de acesso desde terça-feira com máquinas agrícolas.
Na tarde de ontem o centro comercial de Boa Vista fechou as portas, atendendo reivindicação da Associação Comercial e Industrial de Roraima (ACIR), como forma de apoio à mobilização. Os postos de combustíveis, com raríssimas exceções, lacraram suas bombas já a partir do meio-dia de ontem.