O ministro da Saúde, Humberto Costa, afirmou, nesta terça-feira, através de estastística, que as mortes de crianças indígenas, em Dourados (MS), estão de acordo com os números normalmente registrados. Costa disse também que as mortes estão ligadas a problemas culturais e ressaltou as providências tomadas pela Funasa (Fundação Nacional de Saúde) e defendeu a integração entre a União, estados e municípios para resolver a questão.
- É claro que uma morte é sempre preocupante e não pode ocorrer. Isso não é justificativa ou explicação, mas não se caracteriza uma mortandade maior do que nos anos anteriores - disse o ministro na reunião do Conselho Nacional de Saúde, em Brasília.
Segundo Humberto Costa, neste ano, foram registradas seis mortes de crianças indígenas por desnutrição em Dourados. Outros dois óbitos não tinham relação com a doença. Sete crianças da cidade ainda estão internadas no Centro de Reabilitação Nutricional, junto com outras 31.
O ministro Humberto Costa disse que, além da distribuição de alimentos, os técnicos estão ensinando os índios que moram nas aldeias em Dourados a cozinhar:
- Não adianta apenas ficarmos recebendo crianças desnutridas e tentando salvá-las. Precisamos ter respostas com ações integrais - detacou.
Ontem foi enterrado Solivan Duarte, de um ano e três meses, que estava internado num hospital de Dourados. Esta é a sexta morte por desnutrição de criança indígena, na região.
Coordenadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, disse haver ''muito índio e pouca terra'' em Mato Grosso do Sul. A Pastoral da Criança fornecerá a multimistura (que ajuda a combater a desnutrição) para ser distribuída nas aldeias.
Segundo o ministro, questões culturais, perda da capacidade agrícola, alcoolismo entre os índios e até a rejeição das famílias para aceitar tratamento nos centros especializados estão entre os problemas a serem enfrentados.
Segundo documento divulgado nesta semana pela Comissão de Direitos Indígenas do Povo Kaiowá-Guarani, as mortes e desnutrição são causadas por vários fatores, mas a falta de terra é apontada como raiz dos problemas. "Aqui no Mato Grosso do Sul, nós indígenas fomos sendo expulsos de nossas terras, assassinados para a entrada de gado e, depois, de grandes plantações monocultoras como a soja. Foi um processo de violência contra as pessoas e contra as nossas formas de vida. As matas, onde podíamos caçar, foram destruídas pelos madeireiros e os tratores dos fazendeiros. Era lá que podíamos coletar alimentos como as frutas, o mel e a matéria prima para fazer nossas casas e utensílios", afirma o texto.
A Comissão avalia também que o assunto não pode ser tratado como se fosse um problema que se resolve ao "dar comida aos índios", nem a cultura indígena pode ser julgada como responsável pelas mortes. Dessa forma, as soluções vão além da distribuição de cestas básicas, sem levar em conta se o tipo de alimentos está adaptado aos seus costumes. "Nós precisamos, especialmente, de terras homologadas e respeitadas, sem invasores. Mas acima de tudo exigimos respeito e justiça. Não queremos ser mais uma vez objeto de caridade ou de projetos paternalistas. Temos o direto de ser diferentes e livres, de exercer nossa autonomia , sendo ouvidos na estruturação de políticas para nossos povos", conclui.
Nesta terça-feira, o líder do PSDB no Senado, Artur Virgílio (AM), justificou, em sessão, a mortandade dos índios através de uma pesquisa, na qual revela que os gastos do Governo com a compra de remédios para hospitais, no Mato Grosso do Sul, em 2003, foi de R$ 43 milhões e, em 2004, houve drástica diminuição para apenas R$ 1milhão.
Ministro diz que morte dos índios está dentro do normal
Quarta, 09 de Março de 2005 às 06:27, por: CdB