Rio de Janeiro, 19 de Setembro de 2026

Mínimo e o máximo

Por Mauro Santayana, - Para que o salário mínimo deixe de ser tão mínimo, é necessário que o lucro máximo deixe de ser tão máximo. Mas, ao que parece, o Estado teme mais o FMI e meia dúzia de intermediários financeiros do que os milhões de brasileiros. (Leia Mais)

Sexta, 04 de Junho de 2004 às 07:49, por: CdB

Há duas formas de se promover a igualdade: reduzindo o excesso ou preenchendo a falta. Como conter o excesso parece ser mais difícil, iludem-se os necessitados com o aumento do salário mínimo. É a corrida da tartaruga contra a lebre: e só na aporia filosófica da impossibilidade do movimento, de Zenon, o leporídeo não consegue ultrapassar o quelônio.

Há muitos anos o salário mínimo deixou de ser o salário mínimo, tornando-se apenas um valor de referência para aqueles que se encontram no mercado de trabalho, e uma aspiração distante para as dezenas de milhões de brasileiros que se encontram fora do mundo da economia. Deixou de ser o salário mínimo, para converter-se em mote demagógico. Quando se vê o debate acalorado, no Parlamento, em torno dos valores a serem fixados, a cena faz lembrar os cantadores de feira do Nordeste, que se insultam, com ironia e com palavrões, em torno de motes neutros. Para os que a conhecem, faz lembrar a chula anedota das núpcias do português com a viúva - e a insólita presença de um busto de Napoleão ao lado do leito. O salário mínimo é o busto de Napoleão.

Inverteram-se os papéis, como a imprensa não se cansa de mostrar, com a reprodução de cenas do plenário durante o mandato do Sr. Fernando Henrique Cardoso. Os que defendiam o mínimo possível hoje continuam propondo o quam minimum, com a extensão de quinze reais aos 260 do governo. Trata-se de uma variação sobre o nada, um nada sobre nada. É apenas um mote nos desafios de cegos - porque o problema é outro. O problema não está exatamente no salário mínimo, mas no lucro máximo, principalmente o dos mercadores de moeda, o chamado setor financeiro. Para que haja mais lucros financeiros, é preciso que haja mais exploração do trabalho. Entende-se, assim, que para que o salário mínimo deixe de ser tão mínimo, é necessário que o lucro máximo deixe de ser tão máximo. Mas ao que parece, o Estado teme mais o FMI e meia dúzia de intermediários financeiros do que os milhões de brasileiros que lambem o sal dos dedos, porque não têm o que comer.

O problema da Previdência é fácil de resolver. Basta taxar, com justiça, os lucros do capital, principalmente os do setor financeiro. Uma alíquota modesta sobre os lucros dos grandes bancos e distribuidoras de valores, bem como das transações bursáteis, bastaria para cobrir tais déficits, e liberar o salário mínimo dos entraves fiscais. Em suma, basta isso para retirar o busto de Napoleão da câmara nupcial.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

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