Grupos rivais de mineiros bolivianos atiraram bastões de dinamite uns nos outros nesta sexta-feira, apesar de uma trégua declarada depois da morte de pelo menos 14 pessoas em confrontos por áreas de exploração numa das maiores minas de estanho do mundo. As explosões de dinamite ecoavam pela árida cidade andina de Huanini, onde os funcionários da mineradora estatal Comibol e membros de cooperativas independentes de mineiros entraram em choque pelo segundo dia consecutivo.
A disputa representa mais um problema político para o presidente esquerdista Evo Morales, pois ambos os grupos ajudaram na sua eleição, no ano passado. A oposição diz que o governo deveria ter previsto os incidentes e pediu a demissão do ministro do setor. Mais de cem soldados da tropa de choque chegaram à mina de Huanuni, cerca de 280 quilômetros a sudeste de La Paz, enquanto negociadores do governo tentam mediar a situação.
Centenas de cooperativistas, muitos encolhidos na escarpada encosta dos morros próximos à mina, atiraram bananas de dinamite acesas contra seus rivais. Alguns encheram pneus de dinamite, fazendo-os rolar até atingir os mineiros da estatal, que guardavam as entradas da mina. O governo anunciou o envio de mais 700 policiais à área, mas avisou que eles não portarão armas letais.
Após 14 pessoas morrerem e mais de 60 ficarem feridas devido à dinamite e a golpes de paus e pedras, representantes de ambas as partes declararam uma trégua na quinta-feira, mas ela não durou. A violência explodiu quando mineiros das cooperativas agitando bananas de dinamite tentaram invadir a mina, como parte da sua reivindicação de mais áreas para explorar. Cerca de 1.200 funcionários da Comibol e 4.000 cooperativistas trabalham em Huanuni, que produz cerca de 10 mil toneladas de estanho por ano, um pouco mais de metade da produção total do país.
O confronto de quinta-feira também provocou danos a escritórios e outros prédios da mina, além de equipamentos. O ouvidor do governo, Waldo Albarracín, e o presidente da Assembléia de Direitos Humanos do país, Guillermo Vilela, disseram que estão tentando convencer ambas as partes a voltarem à mesa de negociações. Segundo Albarracín, a prioridade é conter a violência.
- Só depois vamos conversar sobre os problemas mais profundos - afirmou a jornalistas.
A mineração, que já foi o pilar da economia boliviana, encolheu na década de 1980, devido à crise econômica e à redução dos preços internacionais. Com a recuperação dos preços na década de 1990, os mineiros demitidos começaram a operar por conta própria minas abandonadas e acabaram formando poderosas cooperativas, que agora reivindicam mais participação no setor. Morales promete incentivos ao setor minerador, mas ainda não anunciou um plano formal nesse sentido.
Rio de Janeiro, 25 de Março de 2026
Edições digital e impressa