Cerca de 1.200 soldados da Força de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU) do exército brasileiro partem nesta quarta-feira para a missão do Haiti. Do contigente, 974 deles são do Exército, 225 da Marinha e um da Aeronáutica. O tempo de permanência é de seis meses.
Os soldados dos Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo partiram em dois aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) no aeroporto do Galeão, no Rio. A viagem até a capital Porto príncipe dura sete horas.
O problema do Haiti não é de segurança, mas econômico, na avaliação do comandante da Força de Estabilização do Haiti (Minustah, na sigla em francês), o general brasileiro Augusto Heleno Ribeiro Pereira.
- Ou os atores envolvidos se convencem de que é preciso mudar os itens básicos de infra-estrutura ou vamos ter outra missão fracassada, como todas as anteriores - disse o general Heleno.
- Enquanto a comunidade internacional achar que o problema do Haiti é exclusivamente de segurança, nada vai mudar. Estou completando um ano aqui e até hoje não vi nenhuma modificação na caótica economia do país - afirmou.
Para o general Heleno, a vantagem é que o Brasil, líder da missão, deve levar uma tropa de engenharia, que será útil no trabalho de recuperação da infra-estrutura.
Em relação à segurança, ele afirma que o interior do país está calmo graças à presença das tropas. A exceção é a capital, onde existem "bolsões de insegurança" e o número de soldados é insuficiente. Para ele, a extrema pobreza do país, onde a maioria da população não tem emprego fixo, agrava a violência política desencadeada com a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide, em fevereiro do ano passado, que levou à presença das forças da Organização das Nações Unidas (ONU) no país.
"Neurose"
Ao mesmo tempo, o general critica o que considera expectativa irrealista da população.
- A população tem um problema de neurose. Aqui, além das forças de segurança, teríamos que ter forças psicológicas para trabalhar com a população do Haiti e mostrar que uma cidade com 2,5 milhões de pessoas (a capital, Porto Príncipe) não vai jamais ter uma segurança perfeita - afirmou.
A missão da ONU no país, que termina nesta quarta-feira, foi renovada por apenas mais um mês, em vez dos 12 meses pedidos pelo secretário-geral da organização, Kofi Annan. Neste período os diplomatas continuam negociando a extensão do prazo até o ano que vem. Annan também quer aumentar de 6,7 mil para 7,5 mil o total de militares de 16 países que compõem as tropas de paz.
Em Porto Príncipe, o principal problema é a falta de policiais, diz ele, para fazer um trabalho que os militares das forças da ONU, dotados com equipamentos de guerra, não estão preparados a realizar.
- Não dá pra colocar um tanque dentro de uma favela para prender um bandido e atirar e matar mulheres e crianças no caminho - diz ele.
Oficialmente, a tarefa das tropas da ONU é apoiar a polícia haitiana. O problema é que, assim como as tropas de paz, o efetivo haitiano é insuficiente. Para cuidar da capital, que ainda tem áreas controladas pelas milícias leais ao ex-presidente Arisitide e nos últimos meses viu aumentar os casos de seqüestro por dinheiro, a polícia haitiana tem 1,5 mil homens. "Brasília, com uma população semelhante, tem mais de 20 mil policiais", compara o general Heleno.
Eleições
As eleições estão marcadas para outubro (as municipais), novembro e dezembro (legislativas e presidenciais). O presidente atual, Boniface Alexandre, era o presidente da Suprema Corte do país e assumiu o cargo, de acordo com a Constituição do país, depois da queda Aristide, que em fevereiro fugiu para a República Centro Africana e hoje está exilado na África do Sul. Por recomendação do Conselho de Idosos, Alexandre escolheu Gerard Latortue como primeiro-ministro interino.