Cerca de 30 mil muçulmanos xiitas gritando "Não à América!" promoveram nesta quinta-feira uma passeata pelas ruas da cidade sulista de Basra numa demonstração de apoio à exigência de seu líder espiritual de que haja imediatas eleições diretas no Iraque, uma posição que pode bloquear um plano dos EUA de transferir rapidamente o poder para um novo governo iraquiano.
O grão-aiatolá Ali al-Husseini al-Sistani quer que um Parlamento interino seja eleito diretamente, e não escolhido em caucuses provinciais, como previsto no plano americano.
A maciça manifestação em apoio ao mais poderoso clérigo da maioria xiita iraquiana mostrou que os EUA não podem se dar ao luxo de desconsiderar as críticas de al-Sistani aos planos de transferência de poder.
Os xiitas estão expressando com cada vez mais força suas preocupações sobre o processo político - mas, ao contrário dos militantes muçulmanos sunitas que estariam por trás da resistência armada anti-EUA, os xiitas, que mais sofreram sob o regime de Saddam Hussein, têm até agora evitado no geral atacar os americanos.
Protestos menores também foram realizados em Bagdá, Ramadi e Mossul contra os planos políticos de Washington para o Iraque, que, para os manifestantes, podem dividir o país.
Pelo plano atual, os EUA irão transferir o poder até 1º de julho para um governo provisório iraquiano, a ser eleito por um Parlamento escolhido em caucuses (reunião de notáveis) provinciais. O plano contempla uma transição política de dois anos antes de eleições diretas em 2005.
Autoridades dos EUA afirmam que a exigência de al-Sistani de eleições diretas para o novo Parlamento não é razoável porque seria impossível promover tal votação diante da precária situação de segurança do país.
Numa tentativa de salvar a data-alvo de 1º de julho, o administrador americano do Iraque, Paul Bremer, viajou nesta quinta-feira para Washington a fim de promover consultas com a administração Bush. Na segunda-feira, Bremer e líderes iraquianos se reúnem em Nova York com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, numa tentativa de resolver o impasse.
Tendo inicialmente buscado minimizar o papel da ONU no Iraque, o governo Bush, pressionado pelas eleições presidenciais americanas de novembro, está agora buscando a participação das Nações Unidas no processo político iraquiano. Não havia menção à ONU no acordo assinado em novembro último por Bremer com o Conselho de Governo iraquiano para a transferência de poder.
Annan já escreveu para o Conselho de Governo afirmando ser impossível a realização de eleições confiáveis antes de 30 de junho. Membros xiitas do conselho rechaçaram a avaliação, dizendo que foi feita por especialistas não familiarizados com a realidade iraquiana. Muitos iraquianos querem que a ONU desempenhe um papel de destaque na transferência de poder.
- Se o acordo for implementado apenas sob a supervisão dos americanos, ele será deficiente porque será executado sob ocupação - avaliou Mahmoud Othman, um membro curdo do conselho.
- Mas se for implementado sob a supervisão das Nações Unidas e a Liga Árabe, então será muito mais aceitável - completou.
A questão da legitimidade persegue a política iraquiana desde a queda do regime de Saddam Hussein em abril. O Conselho de Governo é visto por muitos iraquianos como um fantoche de Bremer, que indicou seus 25 integrantes em julho. Muitos membros do conselho eram opositores de Saddam que passaram muitos anos fora do Iraque.
Numa entrevista coletiva em Bagdá, o atual presidente do conselho, Adnan Pachachi, disse acreditar que al-Sistani pode ser convencido de que as eleições não podem ser imediatamente realizadas.
Mas mesmo se houver um recuo de al-Sistani, "ele quer ver uma forma melhor de se eleger o Parlamento, melhor do que a proposta no acordo de 15 de novembro", informou Pachachi, que se reuniu com o grão-aiatolá na semana passada. Al-Sistani