Depois de dias de confronto, milhares tunisianos gritam palavras
14/01/2011
Gladys Martínez López
Diagonal.web
Milhares de tunisianos concentram-se nesta sexta-feira (14) em frente ao Ministério do Interior e gritam “Ben Ali, fora”. “Nós vamos ficar aqui até que Ben Ali saia”, disse ao jornal Youssef J., um estudante que participa da manifestação, acrescentando que “há pessoas por todas as partes, na avenida Habib Boexplica Urguiba e nas ruas adjacentes”.
Segundo as últimas informações, às três da tarde, horário da Espanha, a polícia começou a atacar os manifestantes utilizando gases lacrimogêneos. O ataque policial estava acontecendo e até o momento se desconhece se há feridos entre os milhares de concentrados em frente ao Ministério do Interior que pedem que o ditador saia. Militares fecharam os aeroportos. A qualquer momento pode ser anunciada a destituição Ben Ali.
Os tunisianos não aceitam as promessas que o ditador Zine Al-Adidine Ben Ali fez nesta quinta-feira (13) ao povo para tentar para os protestos que começaram em 17 de dezembro, quando um jovem vendedor de verduras se suicidou publicamente depois que a polícia o humilhou e apreendeu a mercadoria com que ganhava a vida.
Este ato de desespero foi a gota d'água para uma sociedade, e principalmente uma juventude, fartas dos índices alarmantes de desemprego, da desigualdade, do nepotismo, da corrupção da classe dominante, mas também no limite da paciência com a falta de liberdades e direitos.
A repressão brutal por parte da polícia às manifestações populares de descontentamento, que matou pelo menos 66 pessoas nas últimas semanas, não tem feito mais que enfurecer ainda mais a população e as manifestações, cada vez com maiores reinvindicações políticas, continuam ao longo de todo o mês, desde as zonas mais pobres do interior do país até as regiões mais prósperas da costa e, por último, nesta semana, a capital.
Em uma tentativa de parar uma situação que já não controla, Ben Ali, que já no início desta semana havia prometido criar 300 mil postos de emprego em dois anos e investir nas regiões mais pobres, fez na quinta-feira (13) um discurso ao país no qual prometeu não candidatar-se nas eleições de 2014, a liberdade total da imprensa (depois disso liberou os sites que estavam bloqueados no interior do país há anos) e o fim do assassinato de manifestantes pela polícia, nesta sexta-feira (14) o ministro do Exterior falou inclusive da possibilidade de criar um governo de unidade nacional.
Mas os manifestantes não acreditam nas promessas do ditador. “Isto é uma revolução”, conta Walid, um jovem professor presente na manifestação. “A manifestação de hoje demonstra que a população já não acredita nas promessas do presidente e quer que ele saia já, e também demonstra que a orquestração que organizou ontem o poder, enviando milicias às ruas fazendo-se passar por cidadãos que celebravam seu discurso carregado de promessas não funciona. Em 1984 funcionou quando (o então presidente) Bourguiba fez um discurso similar depois dos “protestos do pão”, mas hoje não; os tunisianos querem que bem Ali saia”, explica outro tunisiano.
Ainda não se sabe como se desenvolverão os acontecimentos nas próximas horas, mas hoje o povo tunisiano é mais otimista que nunca, vislumbra pela primeira vez em 23 anos a possibilidade de expulsar Ben Ali e sente-se orgulhoso por “haver perdido o medo” de um ditador, por certo, muito apoiado pelo Ocidente.