Desde a morte do papa João Paulo 2o., a mídia norte-americana vem cobrindo o pontífice falecido de elogios quase destituídos de críticas, e, ao mesmo tempo, atribuindo pouca importância aos aspectos mais polêmicos de seu legado. A avaliação foi feita na segunda-feira por analistas de mídia.
"O tom da cobertura tem sido, naturalmente, celebratório, mas de maneira parcial. O acontecimento (a morte do papa) entorpeceu as faculdades críticas da mídia. Ela não mencionou nada das coisas ruins que aconteceram ao catolicismo durante seu papado", disse Angela Zito, co-diretora do Centro de Religião e Mídia na New York University.
Durante o papado de João Paulo 2o., a Igreja norte-americana foi criticada por sua reação moderada às revelações sobre pedofilia de padres e por fazer oposição rígida ao uso da camisinha, apesar de seu efeito no combate à difusão da Aids e do HIV na África.
Parte da mídia norte-americana, especialmente alguns órgãos da mídia impressa, tentou lançar um olhar mais reflexivo sobre o pontificado de João Paulo 2o., e alguns jornais chegaram a publicar editoriais críticos. Em 4 de abril, o The Wall Street Journal publicou uma matéria de capa observando que João Paulo foi mau administrador da vasta burocracia do Vaticano.
Mas na televisão, e especialmente nos canais a cabo que funcionam 24 horas por dia, o tom da cobertura foi constantemente positivo.
Isso se deve em parte à tendência natural de não falar mal dos mortos, e em parte ao fato de o papa ser uma figura tão importante, alguém que deixou um legado tão gigante.
João Paulo 2o. conferiu à Polônia a coragem de se opor à União Soviética, com isso dando o primeiro golpe que acabaria por derrubá-la. E ele fez gestos inusitados de abertura em relação a judeus e muçulmanos.
A cobertura da televisão também foi movida por imagens belas e dramáticas do corpo do papa, de seu funeral e da grande manifestação genuína de sentimento popular suscitada entre milhões de pessoas comuns.
Mesmo quando convidados a formular críticas, a maioria dos comentaristas hesitou. Por exemplo, o Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, entrevistado pela CNN dois dias após a morte do papa, disse que evidentemente não concordava com tudo o que João Paulo 2o. fez, mas que preferia focar as coisas com as quais concordava.
Outros, como o ex-sacerdote James Carroll, hoje colunista do Boston Globe, que sempre foi extremamente crítico de João Paulo 2o., moderaram o tom de suas críticas.
Quando o papa ainda estava vivo, Carroll o tinha acusado de ter uma visão "medieval e absolutista" de seu cargo e de manter a Igreja firmemente enraizada no passado.
No dia 5 de abril, Carroll escreveu que: "Como papa, ele chamou a nós -- e ao mundo -- para perto dele para um cochicho íntimo, mesmo que às vezes não entendêssemos uma palavra do que dizia. O importante estava claro, e nós, católicos, o afirmamos. João Paulo 2o. acreditava em Deus. Agora Deus acredita nele".
Em 4 de abril, Tim Russert, âncora do programa "Meet the Press", da NBC, e conhecido por suas entrevistas agressivas, mostrou na televisão uma foto dele próprio e seu filho pequeno conhecendo o papa e disse que a bênção que receberam naquele dia foi um dos momentos mais importantes de sua vida.
Vários comentaristas compararam o tom uniformemente laudatório da mídia à cobertura feita no ano passado da morte e do funeral do ex-presidente Ronald Reagan, também uma figura polêmica cujo funeral foi marcado por elogios quase universais.
O cientista político John Green, da Universidade de Akron, especialista em religião na vida política dos EUA, comentou: "Os defensores da agenda política de João Paulo foram muito ativos e se fizeram prontamente disponíveis. Os críticos estiveram muito menos visíveis".
O teólogo Chester Gillis, da Universidade Georgetown, disse que este não é um momento para críticas.
"Houve muita hagiografia, mas boa parte dela justificada pelos fatos. Esse homem (o papa) mereceu boa parte dos