Por Mário Augusto Jakoskind - Os telejornalões passaram praticamente o dia todo, apresentando Lula como envolvido em falcatruas provenientes das propinas da Petrobras.
Por Mário Augusto Jakoskind, do Rio de Janeiro: Colunista denuncia ser a crise o resultado de múltiplas manipulações
Os últimos acontecimentos no Brasil confirmam a série de tendências que surgiram na mídia conservadora com o fenômeno, agora não tão oculto, da manipulação da informação. Para entender ainda melhor o que se passa, vale a leitura do “Número Zero”, de Umberto Eco, que nos deixou recentemente. Eco explica numa linguagem compreensível a todos os públicos como se desenvolve a manipulação da informação. Parece até que o genial escritor e filósofo acompanhou o que está acontecendo neste momento por estas bandas.
Mas não, Umberto Eco escreve o “Número Zero” nos anos 90, a partir da descrição em um espaço que reunia jornalistas que preparavam a edição de um jornal, que acabou não circulando. Eco acertou em cheio, não só em termos do que sucedia por lá, como os fatos narrados servem para se entender perfeitamente como se dá a manipulação da informação.
No Brasil, depois dos fatos ocorridos na quinta-feira (3) e sexta-feira (4), envolvendo a pré-delação do Senador Delcídio do Amaral e o espetáculo midiático que obrigou o ex-presidente Lula a prestar depoimento no aeroporto de Congonhas para agentes da Polícia Federal, quem acompanhou a cobertura jornalística nos telejornalões deve ter ficado pelo menos estarrecido.
As declarações de Delcído do Amaral criminalizando a Presidente Dilma Rousseff e Lula viraram verdade absoluta, antes de mais nada. O que foi divulgado pela revista Isto É, posteriormente não confirmado oficialmente pelo próprio pré-delator Delcídio, que nem chegou a ser consultado pela repórter autora da matéria, é no mínimo estranho. O que foi que houve exatamente? Como entender que o depoimento, antes de qualquer coisa foi divulgado integralmente pela revista Isto É? Houve vazamento, como se chegou à conclusão. E quem vazou, o que não foi informado, pelo menos até o momento em que estavam sendo elaboradas estas linhas?
Como num passe de mágica, a oposição, que nunca se conformou com a derrota eleitoral da última eleição presidencial, passou à ofensiva mais uma vez com a ajuda da mídia conservadora. Se presenciasse os acontecimentos, possivelmente Umberto Eco elaboraria uma nova edição do “Número Zero”.
Como se o episódio em questão não bastasse, 24 horas depois, a Polícia Federal promovia, inicialmente em São Bernardo do Campo, aonde Lula mora, um espetáculo pirotécnico resultado da “medida coercitiva”, que conduziu o ex-presidente ao aeroporto de Congonhas. De alguma forma, o depoimento de Lula em Congonhas faz lembrar os acontecimentos de agosto de 54, quando a oposição golpista, na época capitaneada por Carlos Lacerda, queria levar Getúlio Vargas para depor no Galeão, onde o estado maior golpista queria detonar o então Presidente, que acabou se suicidando pondo fim ao “banquete político golpista” da época.
O Galeão foi substituído por Congonhas. Em 54 o objetivo era desmoralizar um presidente em exercício e agora o alvo teve também por objetivo a desmoralização de um ex-presidente que por mais que seja queimado diariamente pela mídia conservadora, continua tendo grande influência na vida política brasileira, segundo demonstram várias pesquisas. Lula acusou em especial o esquema Globo por tentar de todas as formas apresentá-lo como criminoso.
Desta vez, às 6 horas da manhã, Lula foi obrigado a ir a Congonhas responder uma série de perguntas formuladas pela Polícia Federal a mando do juiz Sergio Moro, que já foi agraciado pelas Organizações Globo como uma das personalidades do ano. Foi uma medida absolutamente desnecessária, conforme a opinião do Ministro do STF Marco Aurélio Mello, porque Lula nunca se negou a prestar depoimento, o que confirma que o juiz inquisidor Sérgio Moro é mesmo chegado a pirotecnia, sempre com a colaboração da mídia conservadora.
Os telejornalões passaram praticamente o dia todo, como de outras vezes, apresentando, sem provas, Lula como envolvido em falcatruas provenientes das propinas da Petrobras. Foram então acionados os tais analistas de plantão, para repetir o que está sendo apresentando constantemente. Depois de quase quatro horas de depoimento, segundo Lula informou, com as perguntas repetidas em outro depoimento em Brasília, o ex-presidente foi liberado seguindo para o diretório nacional do PT no centro de São Paulo, onde discursou demonstrando que a “medida coercitiva” tinha sido absolutamente desnecessária.
Enquanto isso, a oposição que perdeu as eleições presidenciais desde outubro de 2002 até outubro de 2014, se reunia para tentar levar adiante um golpe para abreviar o mandato da presidente Dilma Rousseff. E um dos seus expoentes, o senador Aécio Neves condenava Lula por ter o ex-presidente convocado os movimentos sociais à defesa da legalidade nas ruas. O perdedor inconformado nas eleições de outubro de 2014 começava a demonstrar visível preocupação com o fato dos apoiadores da legalidade saírem às ruas. O também presidente do PSDB achava que era o “senhor das ruas” com a série de convocações para um ato, marcado para 13 de março, em favor do impeachment de Dilma Rousseff.
E assim, em linhas gerais, caminha a política brasileira em uma visível criminalização de um líder como Lula, que oposicionistas das mais variadas matizes temem e querem colocá-lo na fogueira e eliminá-lo da vida política. Fica evidente que querem voltar ao poder que usufruíam nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, a oposição é capaz de tudo, inclusive através de uma volta que se daria na base do tapetão ao estilo paraguaio e hondurenho.
A propósito, Cardoso foi deliberadamente esquecido pela mídia conservadora, que nos anos 90 tinha total apoio desse setor, inclusive retribuindo os serviços prestados a ela pelo então presidente.
Impressionante, quando estavam sendo elaboradas estas linhas, telejornalões da TV a cabo comentavam os últimos acontecimentos, repetindo a criminalização de Lula e agora deixando para trás o que diziam antes, ou seja, de que o ex-presidente Lula e Dilma estavam em rota de colisão. Para os analistas de plantão, os dois agora não podem se desvencilhar um dos outro. Em menos de 24 horas partiram para outro tipo de análise, sempre com o visível objetivo de queimar tanto Lula como Dilma.
Pena mesmo que Umberto Eco não acompanhasse os acontecimentos atuais neste Brasil para produzir mais um trabalho excepcional sobre a manipulação da informação, que por aqui tem a liderança das Organizações Globo, não ficando para trás publicações como a revista Veja e outras.
Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Consultor de História do IDEA Programa de TV transmitido pelo Canal Universitário de Niterói, Sede UFF – Universidade Federal Fluminense Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançados no Rio de Janeiro.Direto da Redaçãoé um fórum de debates editado pelo jornalistaRui Martins.
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