Michelle Bachelet, que votou neste domingo na qualidade de primeira candidata eleita, segundo as pesquisas, para o cargo de presidente do Chile, não se intimida com as dúvidas de seus opositores quanto a sua capacidade para governar. Médica, socialista, 54 anos, a ex-ministra pode conseguir o quarto mandato presidencial consecutivo para a Concertación, a coalizão de centro-esquerda que governa o Chile desde o final da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. Se eleita, ela encontrará um país com economia brilhante, mas ainda cheio de desigualdades.
- Sim, estou pronta para ser presidente - responde sem titubear.
Inimiga declarada da discriminação contra a mulher no trabalho, ela obteve, no primeiro turno, em dezembro, 45,95 por cento dos votos, aquém da maioria absoluta, mas ainda bastante à frente do segundo colocado, o bilionário Sebastián Piñera, que teve 25,41 por cento.
- Juntos, recuperamos a democracia; agora lhes convido a outro grande marco histórico, a fazer história, a eleger a primeira mulher presidente do Chile. Façamos história - disse Bachelet no único debate pela TV na campanha do segundo turno.
De voz suave e palavra direta, Bachelet já deu mostras de um grande carisma nos seus eventos públicos e de empatia com as pessoas. Admite ser viciada em trabalho, mas se gaba de dançar bem. Separada, mãe de três filhos, promete realizar a partir da posse, em março, uma grande reforma previdenciária, que elevaria a qualidade e a equidade dos benefícios do sistema privado de pensões, criado ainda sob o regime militar.
- Outorgarei um reajuste das pensões mais baixas - disse na propaganda pela TV.
Repressão
No dia 11 de setembro de 1973, a jovem Bachelet observou boquiaberta, do telhado da Escola de Medicina da Universidade do Chile, em Santiago, como aviões lançavam bombas sobre o Palácio de la Moneda, quando Pinochet derrubou o presidente socialista Salvador Allende. No mesmo dia, seu pai, brigadeiro Alberto Bachelet, que chefiava o Escritório de Distribuição de Alimentos do governo Allende, foi feito prisioneiro por "traição à pátria". Devido às torturas sofridas na prisão, Alberto Bachelet teve um enfarto que lhe matou em 12 de março de 1974.
A própria Michelle e sua mãe, Angela Jeria, foram presas e torturadas pouco depois na Villa Grimaldi, um dos mais sinistros centros de repressão da ditadura. Após serem libertadas, em 1975, viajaram exiladas, primeiro à Argentina, e depois à então República Democrática Alemã. De volta ao Chile, em 1979, Bachelet conseguiu concluir os estudos em medicina. Com a volta da democracia, em março de 1990, atuou como assessora dos ministérios da Saúde e da Defesa. Nas eleições de 1999, colaborou com a campanha do atual presidente, Ricardo Lagos.
Lagos a nomeou ministra da Saúde em março de 2000, e ela se dedicou a melhorar o atendimento nos consultórios à população mais carente e em preparar uma reforma no sistema para ampliar a cobertura médica. Quase dois anos mais tarde, o presidente a nomeou ministra da Defesa, o que a tornou a primeira mulher nesse cargo na história da América Latina. Sua gestão atraiu aplausos até mesmo de seus adversários.
Bachelet, que por sua família conhecia bem o mundo militar e tem pós-graduação nessa área, adaptou-se rapidamente ao seu novo trabalho, um cargo que, durante a primeira parte da década de 1990, tinha sido marcado por tensões entre os governos democráticos e a cúpula do Exército, então ainda sob comando de Pinochet.
Pragmática, Bachelet evitou fazer estrondosas promessas de campanha para estas eleições. Preferiu centrar seu discurso no avanço de tarefas pendentes, como a da previdência, e se comprometeu a dar igual número de cargos no governo a homens e mulheres.