Essa versão para o cinema de Miami Vice corre o risco de decepcionar os fãs do seriado que tão bem definiu a década de 1980. Não há os famosos ternos em tons pastel que vestiam o ator Don Johnson, nem a noite encharcada de néon que desempenhava um papel tão importante na história.
Em seu lugar, o filme de Michael Mann, que estreiou nesta sexta-feira, traz um produto mais sombrio e duro que, embora se beneficie consideravelmente da direção fotográfica de Dion Beebe, é frustrantemente inerte - uma excursão longa e verborrágica que não consegue seduzir o espectador.
Quem for ao cinema pensando encontrar um pouco da velha camaradagem entre os detetives Ricardo Tubbs e Sony Crockett vai se decepcionar com a versão criada por Jamie Foxx e Colin Farrell, na qual os dois atores parecem disputar um concurso para ver quem ostenta expressão mais sombria gastando o mínimo de energia. Talvez isso tenha a ver com o calor de Miami, de qualquer forma, o resultado são diálogos chochos e cenas lânguidas.
Ao atualizar o seriado, que ficou no ar entre 1984 e 1989, o roteirista e diretor Mann não se restringiu ao cenário colorido de South Beach, aventurando-se em águas mais turvas nesta história em que os policiais antinarcóticos à paisana Sonny Crockett (Farrell) e Ricardo Tubbs (Foxx) combatem traficantes internacionais sinistros.
Mergulhando em um mundo de cartéis sofisticados, os dois enfrentam capangas da Irmandade Ariana e uma linda, mas durona, lavadora de dinheiro sino-cubana (representada pela nem sempre fácil de compreender Gong Li).
O problema é que o roteiro de Mann não pára de atrapalhar a sua direção. Miami Vice segue a deixa estilística do trabalho anterior do cineasta, Colateral. Mas enquanto aquela trama noturna passada em Los Angeles conseguia aumentar a tensão com eficácia, o longa mais recente apenas tem essa pretensão. Inúmeras sequências potencialmente explosivas acabam paradas no ar, como a umidade da Flórida.
Os diálogos desajeitados - que mais parecem fragmentos de sentenças fazendo as vezes de diálogos - também não ajudam os atores, especialmente aqueles para os quais o inglês é sua segunda língua. E Foxx e Farrell não conseguem gerar uma química convincente como dupla, nem mesmo quando atuam em silêncio.
Mann amplia o cenário para incluir escalas no Uruguai, Paraguai e República Dominicana (que faz as vezes de Haiti), mas, apesar da intriga cosmopolita, Miami Vice não vai a nenhum lugar interessante. Até mesmo a música, que desempenhava papel tão importante no seriado de televisão, decepciona no filme.
Na ausência do tema original ritmado de Jan Hammer, a trilha anônima do compositor John Murphy e as colaborações musicais de gente como Moby e Audioslave não conseguem alcançar o nível atmosférico de In the Air Tonight, de Phil Collins, ouvida no filme em cover pouco inspirado de Nonpoint.
As roupas monocromáticas e sombrias criadas para Tubbs e Crockett pelo figurinista Janty Yates condizem com o tom mais intransigente do filme. Mas simplesmente não parece Miami Vice sem aqueles imortais paletós esporte azuis ou verde-limão.