Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

<i>Meu Tio Matou um Cara</i> mistura sutileza com ironia

Sábado, 01 de Janeiro de 2005 às 07:35, por: CdB

O diretor Jorge Furtado continua firme no seu projeto de fazer cinema jovem de qualidade. Consegue até mais do que isso - faz filmes para adolescentes que atraem também os adultos. Foi assim em seu longa de estréia, Era uma Vez Dois Verões, continuou na mesma linha em O Homem que Copiava - visto por quase 700 mil espectadores. Neste terceiro longa, Meu Tio Matou um Cara, Furtado associa-se a Guel Arraes no roteiro e a receita mantém o pique.

Desde o título, a história brinca com a tentativa aflita dos adultos para manter as aparências diante de uma situação-limite, compensada pela ironia e a clareza com que os adolescentes percebem e analisam tudo, não raro melhor do que os pais.

Parte-se de uma família de classe média balançada por um crime. O tio que matou o cara é Éder (Lázaro Ramos), aquele típico indivíduo que nunca deu muito certo em atividade nenhuma e toda hora se apaixona pela pessoa errada. Desta vez, foi Soraia (Deborah Secco), escultural mulher casada, de quem Éder mata o marido num confronto muito mal-contado.

Para o irmão mais velho de Éder, Laerte (Ailton Graça), e sua mulher, Cléa (Dira Paes), é o fim do mundo. Para o filho do casal, Duca (Darlan Cunha, o Laranjinha da série Cidade dos Homens), abrem-se oportunidades para muitas descobertas. Parte de uma geração alimentada desde o berço pelos gibis e seriados de tevê, Duca é capaz de conselhos preciosos sobre como Éder e seus pais devem lidar com o problema.

A notícia inesperada coloca Duca em evidência em sua escola - e não de maneira negativa. Nestes tempos em que a notoriedade é um valor em si, ter um tio nos noticiários é motivo de prestígio, independentemente do motivo. Sem contar que as pontas soltas no depoimento do tio estimulam Duca e seus melhores amigos, Isa (Sophia Reis) e Kid (Renan Gioelli), a brincar de detetives.

O trio de amigos vive também a ambiguidade de um triângulo amoroso não-declarado, às voltas com o despertar da sexualidade. Tal como acontecia em Era uma Vez Dois Verões, Furtado revela os sentimentos divididos dessa idade com uma sinceridade magnífica. O desenvolvimento da narrativa acredita na inteligência do espectador, apoiando-se em atuações de uma naturalidade que nunca perde a forma.

A questão racial, mais uma vez ventilada, como em O Homem que Copiava, é abordada de forma impecável, já que normaliza a presença de negros na classe média e a convivência entre todas as cores do arco-íris nacional sem chamar demais a atenção para isso nem fazer discurso.

Tags:
Edições digital e impressa