Euescrevi pra mamãe no Dia das Mães, lembra? Daí eu pensei que também deviaescrever pra ti, papai, no dia do Papai, senão era capaz de tu ficar brabocomigo. E tu é sempre tão bom pra mim, eu gosto tanto de ti, e eu queria dizerisso hoje. Eu sou muito feliz por tu ser meu papai. Todo mundo te chama deIone, mas teu nome mesmo é Alcione Mahle.
Euàs vezes sou um pouco um pouco assim não sei como, assim meio tímido. Eu agorajá dou a mão pro tio Selvino quando vem lá de Brasília. Ele me traz umasbolachas que as moças que cuidam do avião mandaram pra mim. Não sei se isso émesmo verdade. Mas tu sempre pergunta pra ele se aquelas moças são mesmobonitas. Aí a mãe, que fica escutando na cozinha, não gosta e diz que tu não épra falar essas coisas pra mim, que eu ainda sou muito criança, que só tenhoseis anos.
Euainda não sei, papai, o que vou ser na vida. Mas quem sabe eu posso ser comotu. Lá na vó Lúcia todo mundo gosta da tua caipirinha, principalmente o tioCláudio, o tio Bruno, que é o tio Caco, e o tio Selvino. E eles gostam tambémdo teu churrasco. Eles dizem que é muito gostoso e bem feito.
Eutambém gosto de ir lá na vó Élly. Eu conheci o teu pai, o vô Lorivaldo, que jámorreu. Eu ia nas plantações dele e comia os doces da vó Élly. Pena que eu nãoconheci o vô Léo, papai da mamãe. Ela sempre conta que ele era muitotrabalhador, que ele criou nove filhos plantando na roça, participava muito dacomunidade e ajudava sempre os outros. Um dia vou querer ser como o vôLorivaldo e o vô Léo. Daí eu vou ser tão bom que nem tu e a mamãe.
Quemsabe, quando eu ficar grande, eu posso ser alguém que faz caipirinha boa ouchurrasco. Ou ser um bom pedreiro com tu. Tu sempre conta que agora tembastante obras e casas pra construir, porque o que era chefe do tio Selvino, opresidente Lula, e agora a nova chefe dele, a tia Dilma, estão fazendo muitacoisa boa e que aí tem bastante serviço pra ti, pro tio Nei, o tio Cláudio epra teu amigo Eder, que trabalham contigo. Pai, eu sei arrumar e construirvárias coisas, como tu. E também sei quebrar brinquedos, principalmente oscarrinhos que eu ganho.
Tambémposso ser jogador de futebol, como o tio Marino que tá meio velho, mas aindajoga muito bem. Ou trabalhar na roça como a mamãe. Se bem que ela diz que otempo anda muito ruim, cai muita chuva. Aí não está dando verdura para venderna Feira do Produtor em Venâncio Aires ou levar pra escola. Agora eu possocomer a alface, a cenoura e o feijão que a vó Lúcia, o tio Marino e a mamãeplantam, as laranjas e as bergamotas que colhem direto no pé, a schmia quefazem no panelão, porque lá na escola São Luiz a nossa merenda vem da nossacomunidade de Santa Emília e de Mato Leitão. E é tudo coisa boa e gostosa. Dizo tio Selvino que isso foi decidido pelo tio Lula lá no governo dele.
Papai,eu só não gosto de tomar injeção. Estes dias eu estava meio doente, tu me levoupro hospital e eu tomei duas na bunda. Aí eu disse que estava andando tortocomo o tio Caco. Doeu muito.
Bemque eu gostaria, papai, de aprender a falar alemão como a vó Lúcia, a vó Elly.Tu e a mamãe sempre falam em alemão com elas e eu não sei quase nada. É umalíngua tão enrolada!
Ah,eu sou gremista como tu. E sempre cuido das tuas coisas, papai. Quando o tioMarino um dia lá em Venâncio bateu teu carro novo no caminhão velho dele, eudisse que ele tinha que pagar, senão eu ia chamar a polícia.
Papai,um dia vou ser como tu. Vou ser forte como tu, mesmo sem gostar de verdura, quetu também não gosta. Vou ser trabalhador, vou cuidar dos outros.
Umgrande abraço, papai, e para todos os papais. Eu gostaria que todos os papaisfossem que nem tu, que cuidassem bem dos seus filhos, sempre brincassem comeles.
Umbeijo do teu filho Gabriel.
Emdez de agosto de dois mil e onze.