Rio de Janeiro, 10 de Maio de 2026

Metáforas fracassadas

Por Katarina Peixoto - Severino é a metáfora fracassada que a oposição produziu para a consagração do seu próprio escárnio frente à democracia. Agora, dois movimentos se articulam, um na oposição e outro no PT. Em ambos, como onde há política, há direita e esquerda. (Leia Mais)

Quinta, 08 de Setembro de 2005 às 08:35, por: CdB

Severino é a metáfora fracassada que a oposição produziu para a consagração do seu próprio escárnio frente à democracia. Agora, dois movimentos se articulam, um na oposição e outro no PT. Em ambos, como onde há política, há direita e esquerda.

"Como o Grande Cisma do poder de classes terminou em reconciliação, hoje convém dizer que a prática unificada do espetáculo integrado 'transformou economicamente o mundo', ao mesmo tempo que 'transformou policialmente a percepção'". Guy Debord, Advertência à reedição francesa de "A Sociedade do Espetáculo" (1992).

Severino é a metáfora fracassada que a oposição ao governo produziu, para a consagração do seu próprio escárnio frente à democracia. Elegeram a triste figura atuais próceres da moralidade pública, surpresos de ocasião, com as acusações de que Severino teria recebido propina de permissionário de restaurante da Câmara. Querem tirar Severino, os seus eleitores, para deixar tudo como está.

Quem nunca teve decência, porém, não pode ser demandado a fazer auto-crítica. Tanto menos, quando o PT tem suas práticas dirigentes equiparadas ao grande escárnio que comanda as finanças e o poder, no país. A crise é de autoridade, não só dos presidentes, mas da própria Política. O Grande Cisma, que parecia uma disputa de projetos políticos para o país, desfez-se, de modo que a tentativa de erguer Severino à posição de metáfora fracassou e tornou-se obsoleta, quer dizer, mais um caso policial imagético.

Agora, dois movimentos se articulam, com mais ou menos grau de consciência, coordenados pela "transformação policial da percepção". Um se desenrola na oposição, outro no PT. Em ambos, como onde há política, há direita e esquerda.

À oposição interessa consumar a desmoralização da esquerda, culminando seus passos espetaculares com o falseio de uma espécie de "limpeza" da própria carne: a Câmara dos deputados. Acusa a Polícia Federal, cujos passos nunca poderão ser dados (a menos que a investigação não seja séria), no ritmo que televisões e revistas semanais impõe. Joga para o executivo a falsa pizza, cultivando na lenha o esconderijo de suas próprias mazelas.
A crise de autoridade do Congresso não pode ser enfrentada enquanto o verdadeiro problema, a lavagem de dinheiro, não for enfrentado. E ninguém verá os eleitores de Severino presidente exigindo controle e fiscalização na evasão de divisas. Severino é o bode de uma metáfora fracassada: tira-se o bode, perseveram o caixa dois, as lavanderias e o modo oligárquico de regular o processo eleitoral.

Tirando o bode da sala, desfaz-se a metáfora da barbárie tentada, com sua eleição, para criar uma imagem de trevas, durante o governo Lula. Metáfora fracassada - não por conta de Severino, que parece pouco capaz de enganar alguém a respeito de quem é -, mas porque não se realizou como tal. As próprias siglas de aluguel do Congresso deram conta do grande gozo oligárquico em que consistiu a receptividade do PT no seu mundo.

<b>Metáfora fracassada da ética na política da reconciliação</b>

No PT, por outro - ou mesmo - lado, desenvolve-se um passo semelhante. Só que nem de bodes o PT ousa dispor. Talvez seja a noite em que o Campo Majoritário mergulhou o partido, talvez seja apenas um modo peculiar de se dizer sincero, ao assumir a própria inconseqüência. Talvez seja a incompreensão, mais profunda, do que a reconciliação de classes implica e exige. Incompreensão frente às conseqüências da percepção policialesca sobre si mesmo.

Pois as evidências do envolvimento com o universo nada paralelo do "dinheiro não contabilizado" é razão suficiente, desde sempre, para o afastamento dos acusados, do PT. Está no estatuto partidário, está na sua história, está na linha política priorizada pelo Campo Majoritário do PT, a ética na política, que esses dirigentes devem se afastar. Os senhores que negociaram financiamento da política partidária com Marcos Valério não dispõem de autoridade

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