Rio de Janeiro, 09 de Setembro de 2026

Mesmo com PEC para modificar rito das MPs, especialista considera que problema não será resolvido

Domingo, 12 de Junho de 2011 às 11:40, por: CdB

Mariana Jungmann
Repórter da Agência Brasil

Brasília - Enquanto o Senado negocia uma proposta de emenda à Constituição (PEC) para modificar o rito das medidas provisórias (MPs) e dar mais tempo à casa para analisá-las, analistas políticos avaliam que a melhor solução seria retirar essa prerrogativa presidencial da Constituição.

De acordo com o cientista político Otaciano Nogueira, da Universidade de Brasília (UnB), a instituição da medida provisória é incompatível com o sistema presidencialista. O professor diz que a ideia da MP foi copiada da Constituição italiana, de 1946, para a Constituição de 1988.

“Só que copiaram da maneira errada. Na Itália, a medida só pode ser usada em casos de calamidade pública ou emergência, não em qualquer situação como aqui. Além disso, lá o regime é parlamentarista, então se o primeiro-ministro envia uma MP e ela é rejeitada, o Gabinete cai. Portanto, ele pensa muito antes de enviar uma”, explica o cientista político.

Para Nogueira, esse tipo de artifício é incompatível com o sistema presidencialista. Na avaliação dele, nenhum presidente optaria por esperar um projeto de lei tramitar por três ou quatro anos no Congresso Nacional se tiver a possibilidade de editar uma MP – que tem validade imediata e tramitação máxima de 120 dias.

O professor também acredita que a solução não está nas mudanças propostas pela PEC do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Atualmente, as medidas provisórias valem por 60 dias, prorrogáveis por mais 60, sem tempo determinado para votação em cada casa do Congresso.

O texto de Sarney propõe que o rito das MPs mude e que elas passem a ficar no máximo 55 dias na Câmara. Caso não sejam votadas nesse prazo, elas seguiriam para o Senado, onde o prazo para votação seria de novos 55 dias e não haveria abertura para novas emendas de deputados. Caso os senadores propusessem mudanças, a MP seguiria para sanção presidencial. Caso fosse aprovada sem alterações, seguiria para promulgação, como ocorre hoje.

Algumas emendas já foram apresentadas. A que teve mais aceitação foi a do senador Aécio Neves (PSDB-MG), que relatou a proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. A alteração apresentada por ele, e aprovada na comissão, sugere que o prazo da MP passe a ser de 60 dias para a Câmara, 45 dias para o Senado e, em seguida, mais 15 dias de retorno para avaliação dos deputados, caso haja modificações. A proposta de Aécio prevê ainda que se a medida não for votada pela Câmara em 60 dias, será automaticamente arquivada.

A mudança mais polêmica feita pelo senador, no entanto, foi a de criação de uma comissão de 24 deputados e dez senadores que ficaria responsável por avaliar a admissibilidade da MP e que teria o poder de rejeitá-la antes da apreciação dos outros parlamentares.

Apesar de ter sido aprovada na CCJ do Senado por acordo com a base aliada do governo, o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), declarou que essa ideia estaria condenada depois do último embate entre governo e oposição, em que duas MP foram arquivadas por decurso de prazo. No dia da votação dessas medidas – último dia de prazo – a oposição obstruiu os trabalhos do Plenário e conseguiu que elas não fossem votadas antes da meia-noite. Desde então, as negociações para a votação da PEC ficaram suspensas e ela não foi posta em votação.

“Ainda vai haver uma tentativa [de votar a proposta]. Tem o projeto original [de Sarney], o substitutivo [de Aécio Neves] e a Emenda Valadares”, afirmou Costa na última semana, referindo-se a uma emenda apresentada pelo senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE). Na proposta, as comissões responsáveis por avaliar a admissibilidade da MP ficam sendo as de Constituição de Justiça do Senado e da Câmara.

Humberto Costa reconhece ainda que a PEC precisa ser aprovada, porque tem havido reclamações tanto da base aliada quanto da oposição de que a Câmara dos Deputados atualmente consome praticamente todo o prazo de 120 dias para votar as medidas, deixando o Senado sem tempo para analisar e discutir adequadamente. “Vai sair [a votação], agora se vai ser consensual ou não, eu não sei”, completou o líder do PT.

Para o senador Pedro Taques (PDT-MT), é importante promover as mudanças o mais rápido possível. Na opinião dele, o Poder Executivo tem legislado no lugar do Legislativo por meio das medidas provisórias. “Está no momento de modificarmos o rito das MPs para dar ao Legislativo o poder de legislar. Eu acho que seria bom um recurso ao Plenário [para avaliar a admissibilidade da medida], mas também pode ser pela CCJ da Câmara e do Senado”, avaliou o senador, lembrando a Emenda Valadares.

O oposicionista Demóstenes Torres (DEM-GO) defende as propostas feitas pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) e aprovadas pela CCJ do Senado. Segundo ele, foi feito um acordo com os governistas, que ainda não procuraram a oposição para desfazer o entendimento em torno do substitutivo do senador tucano. Apesar disso, Torres reconhece que a Emenda Valadares pode ser aprovada. “É possível, mas por enquanto o que existe é o texto do senador Aécio. Ninguém nos procurou para dizer o contrário”, afirmou .

Para o cientista político Otaciano Nogueira, nenhuma dessas propostas resolverá o problema. “Isso é remendo. A solução é acabar com a MP. A culpa pelo problema é coletiva: do Executivo, que usa excessivamente a MP, e do Congresso, que tem a solução nas mãos para o problema e não o faz”, conclui o professor, referindo-se a uma PEC que retiraria a MP da Constituição.

Enquanto isso, não há data certa para a votação da PEC, que precisa ser aprovada em dois turnos de votação no Senado antes de seguir para a Câmara dos Deputados.

Edição: Graça Adjuto

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