Rio de Janeiro, 23 de Maio de 2026

Mesa renuncia e agrava crise na Bolívia

O presidente boliviano, Carlos Mesa, renunciou no final da noite desta segunda-feira após 20 meses no poder e em meio a uma nova onda de manifestações lideradas por grupos indígenas. Mesa anunciou sua decisão em uma mensagem por rádio e televisão. (Leia Mais)

Terça, 07 de Junho de 2005 às 06:01, por: CdB

O presidente boliviano, Carlos Mesa, renunciou no final da noite desta segunda-feira após 20 meses no poder e em meio a uma nova onda de manifestações lideradas por grupos indígenas.

Mesa anunciou sua decisão em uma mensagem por rádio e televisão.

- Chegou ao limite o meu trabalho - disse o presidente.

A Bolívia tem passado por uma série de manifestações que bloquearam as estradas, o que já está afetando a atividade econômica do país.

- Não estou disposto a matar. Sou um homem de palavra...e que aprendeu profundamente a amar esta pátria - acrescentou.

A decisão de Mesa de apresentar sua renúncia põe à prova as instituições de um país que, segundo analistas, vem se caracterizando pela instabilidade e por golpes de Estado.

Agora, o Congresso terá de decidir se aceita ou não a renúncia apresentada nesta segunda-feira. Em caso afirmativo, há duas medidas que podem ser tomadas, dar seguimento à sucessão institucional ou convocar eleições nacionais.

Estão habilitados para a sucessão presidencial o presidente do Senado, Hormando Vaca Díez, do Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR, em espanhol); o presidente da Câmara dos Deputados, Mario Cossío, do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR); e o presidente da Corte Suprema de Justiça, Eduardo Rodríguez.

Mesa, um político sem filiação partidária de 51 anos, era vice-presidente quando assumiu a Presidência depois de seu antecessor, Gonzalo Sánchez de Losada, deixar o país em outubro de 2003 em meio a uma sangrenta revolta popular que deixou cerca de 80 mortos.

As pesquisas mostram que Mesa era popular, mas sua margem de manobra estava muito restrita no Congresso, controlado pelas legendas tradicionais e por movimentos regionais e sociais cada vez mais organizados e críticos.

Nas últimas três semanas, as manifestações ganharam várias novas frentes. Voltaram os bloqueios nas estradas e a cidade de El Alto - vizinha de La Paz e centro da reivindicação pela nacionalização do setor de gás natural e de uma assembléia constituinte - ficou paralisada.

Há 15 dias a Federación de Juntas Vecinales de El Alto, instituição que no ano passado provocou a queda de Sánchez de Losada de seu segundo mandato constitucional, insiste há 15 dias pela nacionalização dos hidrocarbonetos.

Outros movimentos sociais também reivindicavam, por meio do bloqueio de estradas e mobilizações nas ruas, a convocação de uma assembléia constituinte. Em 2 de junho Mesa assinou um decreto convocando eleições em outubro para designar os membros desta assembléia.

Durante 19 meses e 17 dias, Mesa, um historiador acadêmico, comandou um governo sem base partidária e que não contava com sustentação parlamentar. Ainda assim parecia decidido a implantar um modelo de economia sem estatismos ou receitas ultraliberais no país mais pobre da América do Sul.

Mas a forte convulsão social e sua decisão de não reprimi-la o obrigaram a apresentar sua renúncia pela segunda vez em seu mandato. A primeira foi em 6 de março, mas o pedido foi rejeitado pelo Congresso.

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