Rio de Janeiro, 27 de Maio de 2026

Mercosul: crise terminal?

Domingo, 15 de Maio de 2005 às 07:07, por: CdB

A julgar pelo noticiário, o Mercosul está atravessando crise profunda com os conflitos crescentes entre Argentina e Brasil. Mas não há qualquer sinal de colapso nas estatísticas de comércio exterior. A agonia é da concepção liberal de integração, que predominou na América Latina na década passada, e não nos levará a parte alguma.

A julgar pelo noticiário, o Mercosul está atravessando crise profunda, talvez terminal, em razão dos conflitos crescentes entre Argentina e Brasil. Não passa uma semana sem que apareçam na imprensa brasileira, com grande destaque, novas desavenças e tropeços na relação com a Argentina. Kirchner é apresentado como errático e temperamental; Lula, como um frouxo, que não dá aos argentinos "a resposta à altura".

Formou-se um grupo barulhento de "falcões", do qual fazem parte inclusive ministros de Estado, que pedem insistentemente "linha dura" com a Argentina e outros países em desenvolvimento. Um desses ministros "falcões" acompanhou o Presidente da República em recente visita à Nigéria e, insatisfeito com o andamento dos negócios e das reuniões, achou bonito fazer tremendas desfeitas aos anfitriões. Mais um pouco e poderia ser enquadrado na lei Afonso Arinos.

O que dizer disso tudo? Sabemos que o entendimento internacional nunca é fácil, especialmente quando existe um histórico de rivalidade, como é o caso de Brasil e Argentina. Além disso, os políticos estão sempre aprontando. É forte a tentação de usar a política externa como instrumento de política interna, o que significa, freqüentemente, maximizar ou alardear atritos com estrangeiros para faturar com os eleitores nacionais. É possível que esse tipo de cálculo ou outras considerações políticas domésticas estejam presentes no comportamento de Kirchner em relação ao Brasil. Talvez se possa dizer, também, que firmeza não figure entre as principais qualidades de Lula.

Falcões e frangos

E, no entanto, os que pedem "endurecimento" com a Argentina, a Nigéria ou a China não cantam a mesma cantiga quando ocorrem discordâncias e conflitos, não raro graves, com os Estados Unidos ou outros países desenvolvidos. Os nossos "falcões" têm as suas peculiaridades. A experiência mostra que eles estão sujeitos a mutações extraordinárias: transformam-se instantaneamente em frangos ou galinhas, quando lidam com norte-americanos ou europeus.

Seja como for, tem cabimento falar em "crise", "colapso" ou "agonia" do Mercosul e da relação Brasil-Argentina? Não se deve perder de vista que, nos dois países, há setores poderosos, bem representados na mídia e no governo, que têm interesse em passar essa versão à opinião pública. Quem se limita a assistir televisão e a ler as manchetes dos jornais pode ser induzido à conclusão de que o Mercosul está nas últimas. "Ojo!", como dizem os argentinos.

Estranha agonia

O curioso é que não há qualquer sinal de "agonia" ou "colapso" nas estatísticas de comércio exterior. Posso citar algumas? Prometo não abusar. Nem é preciso entrar em detalhes. Os grandes números mostram, de maneira bastante clara, que o comércio intra-Mercosul está em vigorosa expansão.

Nos primeiros quatro meses deste ano, as exportações de mercadorias brasileiras para a Argentina aumentaram nada menos que 41% em valor, para US$ 2,8 bilhões. A participação argentina no total das exportações do Brasil cresceu para 8,3% nesse período, em comparação com 7,7% nos primeiros quatro meses de 2004. Depois dos Estados Unidos, a Argentina é o segundo maior mercado individual para o Brasil. Os países do Mercosul foram o destino de quase 10% das exportações brasileiras; os Estados Unidos absorveram 21% do total.

As nossas importações da Argentina também têm crescido, embora em ritmo menor. Nos primeiros quatro meses de 2005, o crescimento do valor importado foi de 16% em comparação com igual período de 2

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