Rio de Janeiro, 04 de Abril de 2026

Mercosul caminha a passos largos para a esquerda

A reunião semestral do Mercosul, que ocorre nestas quinta e sexta-feiras, em Córdoba (Argentina), será marcada por dois eventos: a assinatura de um acordo comercial com Cuba e a participação pela primeira vez da Venezuela como membro pleno. Para alguns analistas, esses dois fatos são exemplos de que o bloco - que desde 1991 reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - está dando uma "guinada à esquerda". (Leia Mais)

Quinta, 20 de Julho de 2006 às 09:26, por: CdB

A reunião semestral do Mercosul, que ocorre nestas quinta e sexta-feiras, em Córdoba (Argentina), será marcada por dois eventos: a assinatura de um acordo comercial com Cuba e a participação pela primeira vez da Venezuela como membro pleno. Para alguns analistas, esses dois fatos são exemplos de que o bloco - que desde 1991 reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - está dando uma "guinada à esquerda".

- Ficará impossível uma eventual negociação do Mercosul com os Estados Unidos e ainda mais difícil a negociação que se arrasta com a União Européia - acredita o cientista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos União para a Nova Maioria.

- Se Hugo Chávez (presidente venezuelano) insistir em manter uma agenda política agressiva, isso poderá gerar instabilidade no Mercosul - acrescentou o professor da escola de governo da Universidade Torcuato Di Tella, Sergio Berenztein.

Para o cientista político Roberto Bacman, do CEOP, no entanto, a entrada da Venezuela representa "fato positivo" e a "união" da América Latina.

Peso econômico

Fraga, Berenztein, Bacman e o economista Dante Sica, ex-negociador argentino no Mercosul e atual consultor da Abeceb, concordam que o bloco ganhará maior peso econômico com as últimas iniciativas.

- O Mercosul deixa de ser, principalmente, exportador de alimentos e bens industriais (neste último caso, graças ao Brasil) e passa a ter também perfil de exportador de energia - disse Sica.

A Venezuela é um dos maiores produtores e exportadores de petróleo do mundo e especula-se que a Bolívia, rica em gás, poderia ser o próximo país a aderir, como membro pleno, ao Mercosul. Mas ainda não se sabe quando isso ocorreria, e Morales também não confirmou a possibilidade, publicada na imprensa argentina. Na reunião presidencial em Córdoba, chamada de 30ª Reunião do Conselho do Mercado Comum e de chefes de Estado, existe expectativa para o possível desembarque de Fidel Castro.

Ali, a Argentina passará para o Brasil a presidência temporária do Mercosul. Será uma das poucas reuniões de cúpula do bloco que não estará marcada pelas diferenças comerciais entre o Brasil e a Argentina, cujo comércio bilateral cresceu mais de 16% (para cada um destes dois sócios) no primeiro semestre de 2006. Mas o Brasil, durante sua presidência temporária do Mercosul, terá desafios como o de tentar atender às insatisfações do Paraguai e do Uruguai, sócios menores do bloco, além das negociações com a União Européia.

Nestes últimos seis meses em que a Argentina foi presidente temporária, foram registradas, além da insatisfação paraguaia e uruguaia, diferenças bilaterais dos outros participantes desta integração, incluindo os sócios, Bolívia e Chile.

- Com a chegada da Venezuela ao bloco, Paraguai e Uruguai vão poder aumentar suas exportações dentro do Mercosul. E isso realmente é positivo para eles (os sócios menores) - amenizou o secretário de Relações Econômicas Internacionais da Argentina, Alfredo Chiaradia, durante café da manha com a imprensa estrangeira em Buenos Aires.

Nacionalização

Neste último semestre, a decisão do presidente boliviano de nacionalizar os hidrocarbonetos atingiu, diretamente, os mercados brasileiro e argentino. O Brasil ainda negocia a questão com a Bolívia, e o presidente Lula poderia ter, em Córdoba, reunião bilateral com Morales.

No mês passado, os governos da Bolívia e da Argentina chegaram a entendimento para a alta do preço do gás boliviano vendido ao mercado argentino. Fato que levou o governo Kirchner a anunciar ajuste do preço do produto repassado ao Chile. Nesta rede de decisões e efeitos, parlamentares da oposição responsabilizaram a presidente chilena, Michele Bachelet, pela falta de previsão à medida argentina. A medida, segundo analistas chilenos, teria contribuído para intensificar a crise no governo que levou Bachelet a substituir três de seus ministros, na semana

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