As experiências históricas em que aliados brigam e abrem caminho para o triunfo do inimigo comum são muitas. Basta citar a mais trágica de todas: a exacerbação dos conflitos entre a social-democracia e os comunistas na Alemanha, facilitando o caminho de ascensão de Hitler, que acabou por esmagar a ambos, além de tudo o mais que seu regime de terror arrasou. O Brasil e a Argentina, dirigidos por FHC e Carlos Menem, enfraqueceram o Mercosul ao limite da sua quase desaparição. Fizeram isso ao sabor dos conflitos setoriais e das diferentes políticas cambiais. Méritos dos governos de Lula e de Néstor Kirchner são a retomada do Mercosul, sua ampliação e reforço.
Porém, os conflitos corporativos não deixam de existir, e agora ameaçam de novo o Mercosul. A questão é que, neste momento, essa polêmica está no limite de facilitar o triunfo da Alca (Área de Livre-Comércio das Américas). Quem olhe a forma irresponsável com que, de lado a lado, são administrados - ou não o são - esses conflitos, fica crendo que existem sabotadores dentro dos dois governos - e das elites dos dois países - e que na realidade o que privilegiam a defesa dos seus lucros corporativos e desejam a Alca, e não o Mercosul. Seus interesses reduzem o bloco sul-americano a uma disputa pequena de mercados setoriais, sem a visão estratégica do que a integração da América do Sul significa e do que poderia significar, ao contrário, o triunfo da Alca.
O tempo corre contra o Mercosul. Quem quer que seja eleito presidente dos Estados Unidos, em novembro, retomará a ofensiva pela Alca, abandonada neste momento porque nenhum dos presidenciáveis quer ceder votos que disputam palmo a palmo, o que aconteceria se aceitassem ceder pedaços do seu mercado interno. Mas voltarão firmes à carga no começo do ano que vem. Os destinos do Mercosul dependerão de quanto se tenha avançado neste ano, para enfrentar essa ofensiva com força e capacidade de resistência. Os conflitos atuais sabotam o Mercosul e abrem caminho para a Alca.
A única forma de garantir a consolidação do Mercosul é avançar rapidamente para a construção do Parlamento do Mercosul e da sua moeda única, ainda este ano. De outra forma, o Mercosul - e, com ele, o futuro dos países do continente - ficará ao sabor dos conflitos corporativos da busca imediata de lucros, e dará lugar ao que parecem desejar os que se comportam assim - não o Mercosul, mas a Alca. Lula e Kirchner têm que tomar para si as responsabilidades do Mercosul, dar um basta a esses conflitos e avançar na construção do Mercosul político, institucional, financeiro, social, cultural, educacional, esportivo, informativo. Do contrário, retrocederemos aos tristes tempos de FHC e Menem, que levaram o Mercosul à beira da desaparição e prepararam, como quinta colunas, o terreno para a Alca.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".